quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Comunicação mãe-feto


A investigadora Marie Claire Busnel (2003), no VI Encontro Brasileiro para o Estudo do Psiquismo Pré e Perinatal, realizado em São Paulo, focou a sua conferência na comunicação entre a mãe e o feto, dentro do útero materno[1]. Começou por descrever o desenvolvimento intra-uterino dos sentidos do bebé, o qual resumirei de seguida.

Paladar e odor
                Estudos feitos em 1999 demonstraram que o líquido amniótico materno difere no odor e sabor, passando esse mesmo sabor para o colostro e, depois, o leite materno. É por isso que alguns bebés rejeitam o leite materno enquanto estão na maternidade, uma vez que a alimentação que é dada à mãe no hospital difere da alimentação que esta tem em casa. A solução é simples: pedir aos visitantes que tragam comida à qual a mãe está habituada. Desta forma, o leite retomará o sabor “familiar” ao que o bebé estava acostumado dentro do útero, voltando a mamar normalmente.

Visão
 
                Apesar de este sentido se ir aperfeiçoando e apurando após alguns meses de vida, sabe-se que “o recém-nascido já tem todo um desempenho visual”[2]. De facto, os recém-nascidos conseguem ver perfeitamente a uma distância de mais ou menos 40 centímetros, isto é, a distância que a mãe pega quando está a amamentar. Parece que este sentido “nasce” com o objetivo de ajudar o bebé a criar laços afetivo-emocionais com quem cuida dele e lhe dá conforto e segurança. Por isso, é muito importante que os papás não tenham receio de “partir” ou “desfazer” o seu bebé e o segurem a uma distância de mais ou menos 40 centímetros do seu rosto, para que os bebés também se vinculem à figural parental masculina. O mesmo conselho se aplica a avós e tios que queiram que o novo ser os conheça e reconheça.

 
Audição
 
                Para testar a audição do feto, dentro do útero, foi utilizada como medida o seu ritmo cardíaco. Colocaram-se as mães numa espreguiçadeira com captação do ritmo cardíaco dos seus bebés, enquanto esta ouvia música nos seus fones. A mãe não tinha conhecimento da altura em que o seu feto iria ser estimulado a nível auditivo. Ao lado do ventre, existia um altifalante, o qual seria utilizado para estimular o feto. Todo o processo foi monitorizado por um computador, medindo as pulsações cardíacas do feto aquando dos vários momentos: repouso – estimulação – repouso. Observou-se que no momento da estimulação houve aumento ou redução do ritmo cardíaco do feto, estando o aumento do ritmo cardíaco associado a ruídos intensos e a sua redução associada a um ruído familiar. Observou-se, igualmente, que houve uma habituação ou memória relativamente aos ruídos desconhecidos, sendo que o ritmo cardíaco diminuiu à medida que o mesmo estímulo se repetia, ao longo do tempo.
 
                 Esta descoberta levantou outra questão à investigadora Marie Claire Busnel: será que o feto reconhece e discrimina os sons que ouve pela voz da mãe, ou apenas reconhece o seu timbre? Decidiu pesquisar acerca da diferenciação do som “i” e “a”, recorrendo a estímulos de duas sílabas complexas ba/bi e bi/ba, as quais foram repetidas várias vezes até não haver mais reação por parte do feto. Quando o feto voltasse a reagir significava que teria reconhecido as diferenças nos sons, discriminando as duas sílabas. Os resultados confirmaram a hipótese de que os fetos discriminam não apenas a voz, mas também os sons dentro do útero. Discriminam, também, a voz de homem e mulher.

                Assim, é fundamental que a mãe, o pai e os familiares diretos falem em voz alta com o bebé, pois ele ouve e discrimina o que se lhe diz. Embora sejam memórias inconscientes, tudo o que se lhe disser e ensinar dentro do ventre ficará carimbado na sua personalidade e modo como irá encarar a si mesmo, à vida e aos desafios futuros.

 

                Marie Claire Busnel fez, na minha opinião, uma descoberta brilhante: o bebé reage não apenas à voz da mãe mas também ao seu pensamento. Mediram as pulsações e movimentos intra-uterinos do bebé quando a mãe não pensa nele e quando a mãe pensa nele. Utilizaram como controlo o silêncio e observaram que, mesmo sem falar, quando a mãe não pensa no bebé este movimentava-se mais comparativamente a quando a mãe pensava nele. Alguns bebés chegaram até a adormecer quando a mãe estava a pensar neles. Por outro lado, a reação oposta também ocorria. Quando o bebé se encontrava calmo e a mãe pensava nele, este mexia-se mais.

                Observou-se que, quando a mãe pensa no seu bebé desencadeia reações fisiológicas que afetam, por sua vez, o estado fisiológico do bebé. Este processo prolonga-se aos bebés recém-nascidos. Estas conclusões sugerem que os fetos sentem emoções, estimulações sensoriais e memorizam essas mesmas estimulações vindas do exterior e interior da mãe

 

                Efetivamente, a mãe desempenha um papel fundamental no desenvolvimento de um ser pois este irá absorver não apenas os seus nutrientes e oxigénio, mas também o que ela sente e pensa relativamente a ele e aos outros! Que responsabilidade, mamãs!

                 Que responsabilidade também a dos papás, avós, tios, etc.! Tudo o que vocês disserem ao vosso pequenino ser irá contribuir para a sua construção e desenvolvimento emocional! Quão emocionante é saber que a autoestima e o autoconceito se forma dentro da barriga da mãe e se estrutura fora dela! Portanto, sejam positivos no que falarem e pensarem, promovendo e prevenindo falta de autoconfiança, amor próprio e coragem para enfrentar os desafios. Contem ao bebé como foi o vosso dia, não escondendo frustrações mas mostrando soluções para os problemas. Não apenas estão a ajudar o vosso bebé a se tornar numa pessoa otimista e positiva, mas também se ajudarão a si mesmos, encontrando respostas muitas vezes encobertas pela falta de diálogo consigo mesmo.
                 "A boca fala do que o coração está cheio" (Mateus 12:34), nada mais verdadeiro!

 


 

 




[1] Busnel, M. C., Soussumi, Y. & Cunha, I. (2003). A comunicação entre mãe e feto. In Willeln, J. (Coord.). Relação Mãe-Feto visão atual das Neurociências. São Paulo: Casa do Psicólogo.


[2] Ibid. Página 18.

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