Uma mamã com parto sem
intercorrências tem um internamento de 48 horas. Passadas essas 48 horas a mamã
e bebé são (re)avaliados e, se ambos estiverem bem, têm alta.
No caso de cesariana o
internamento prolonga-se para as 72 horas. Se, passados os três dias, a mamã e
bebé estiverem bem, poderão ir para casa.
Para as muitas futuras ”mamãs de
primeira viagem” que não sabem o que se passa durante o tempo de internamento,
posso dizer que não são dias “parados” ou sem nada para fazer. Pelo contrário!
Posso partilhar a minha experiência de um parto por cesariana.
O nosso bebé nasceu às 23h36 do
dia 14 de maio de 2014. Quando ele nasceu, ouvi o seu forte choro e, minutos depois,
pude dar-lhe muitos beijinhos quando o colocaram perto da minha cara. O bebé
fez contacto pele a pele com o pai, pois comigo era impossível.
Depois de cozida (por dentro) e
agrafada (por fora), e depois de me terem feito um penso muitíssimo apertado
que me provocava dores tremendas, fui para a sala de recobro, onde tive de
esperar alguns longos minutos até me trazerem o bebé. Puseram o meu filhinho
deitado a meu lado e incentivaram-me a dar de mamar. É uma sensação estranha,
pois nem nós nem o bebé sabemos bem o que fazer. É o puro “instinto” que nos
diz como fazê-lo, a ambos. O bebé começou logo a mamar e só então me senti
“mãe”. É estranho dizer isso, mas foi o que senti.
O pai pode estar a meu lado nesse
momento, mas quando me levaram para o quarto na ala de internamento, tivemos de
nos despedir do papá pois a hora já era avançada.
Chegamos ao quarto, estava tudo
escuro e silencioso. A auxiliar perguntou-me se queria um chá e umas
bolachinhas e eu aceitei. Quando trouxe a ceia, disse que se sentisse dores ou
precisasse de algo, premisse o botão da campainha, mesmo ao lado da cama. O
bebé ficou deitadinho do meu lado direito, calmo e sereno. Estávamos ambos
esgotados do dia anterior. A meu lado esquerdo ressonava uma mamã, tapada pela
cortina. À minha frente estavam mais duas mamãs e seus bebés. Uma bebé chorava
constantemente. A sua mamã não sabia bem o que fazer para acalmá-la. Os outros
bebés dormiam, juntamente com o meu.
Já de madrugada as dores começaram
a apertar. Tinha o soro a correr na mão direita e uma algália que me aliviava a
bexiga. Toquei, pela primeira vez, à campainha. Uma auxiliar pouco simpática
veio à porta: “quem tocou?”. Timidamente respondi, “fui eu”. “Diga”, respondeu
secamente. “Estou com muitas dores, já não aguento mais”. A auxiliar deu meia
volta e saiu. Calculei que fosse chamar a enfermeira o que, de facto,
aconteceu. A enfermeira já trazia uma dose de Nolotil, que me introduziu no
soro sem falar muito. Disse apenas que, se tivesse mais dores, a chamasse
novamente.
A noite passou-se e, às 6h30,
chegou uma “equipa” preparada para me levantar e dar banho. Puseram o bebé no
berço e disseram-me para me levantar e preparar as coisas para o banho.
Lentamente levantei a cabeça, depois com muito custo rolei para colocar as
pernas no chão e sentar-me na cama. As dores eram excruciantes. Depois de
esperar uns minutos para não desmaiar, levantei-me com a ajuda da enfermeira e
preparei as coisas para o banho. Um conselho às futuras mamãs: levem os
produtos de higiene (gel de banho apenas, para o primeiro banho), toalha de
banho e toalha de bidé, bem como uma camisa de dormir e umas cuecas ou fraldas,
já separados em sacos individuais para cada dia de internamento. É complicado
estar à procura do que precisamos numa mala cheia, para além de não ser fácil
transportar todos aqueles elementos na mão para a casa de banho.
Escolhi usar fraldas de
incontinência em vez de cuecas descartáveis, o que me facilitou em termos
práticos: não me sujei com sangue, senti-me mais aconchegada na zona do abdómen
e senti-me mais confortável a nível de movimentos. Aconselho vivamente!
O banho deu-se, com um avental de
plástico para não molhar o penso. Soube-me tão bem! Foi a primeira vez que
deixei o meu bebé a cuidado de outros. Quando saí do banho, deitei-me
novamente. Fui observada pela enfermeira que me palpou a barriga para sentir o
útero, apertou-me os mamilos para ver se tinha leite e viu se estava a sangrar
muito. Estes procedimentos demoraram algum tempo, chegando a hora do pequeno
almoço: uma carcaça com manteiga e leite com café ou simples.
O meu bebé não tinha chorado essa
noite nem tinha “pedido” mais comida. Pelo contrário, estava aparentemente mal
disposto, com vómitos. Saía uma espécie de espuma branca sempre que um vómito
chegava. Chamei a enfermeira: “é normal acontecer?”. Esta é a pergunta mais
frequente e mais utilizada depois que um bebé nasce! Não sabemos nada, e tudo o
que acontece é novidade para nós e para o bebé! Perguntamo-nos muitas e muitas
vezes: “é normal?”. Sim, é normal! Tudo é normal nesta fase inicial, mas para
uma recém-mamã tudo parece estranho! O que estava a acontecer é que, como o
bebé não tinha sido “espremido” pelo canal pélvico, como acontece aos bebés de
parto normal, logo, tinha fluídos acumulados no estômago que precisava
libertar.
Depois de lhe mudar a fralda, a
enfermeira perguntou se o bebé fizera cocó e chichi. Respondi que apenas tinha
feito chichi, pelo que a enfermeira me deu um bebé gel para aplicar. Senti uma
estranheza enorme: já? O bebé mal tinha saído de mim e começava já a ser “entupido”
de coisas! Mas teve de ser. Fez o bebé gel e, passado algum tempo fez o seu
primeiro cocó verde escuro e muito gelatinoso! Era o mecónio.
Entre dar de mamar, tratar dos
mamilos, tentar descansar, mudar fraldas e ser observada pelas enfermeiras,
chegou o momento das vacinas. Coitadinho do meu bebé! Tinha nascido na noite
anterior e já ia ser picado! Levou duas vacinas: Hepatite B (1ª dose) e BCG.
Com esta azáfama nem me apercebi que
era hora de almoço. Vieram os tabuleiros e fomos almoçar. Mal me consegui
sentar na cadeira…aliás, mal me conseguia mexer com as dores intensas. Tentei
engolir um pouco de peixe frito terrivelmente seco, uns bróculos sem sal e um
pouco de puré igualmente insonso! Que coisa horrível comer comida sem sal! A
sopa era praticamente puré de batata com uns fios de couve a boiar. A sobremesa:
uma laranja! Sinceramente! Para mulheres a tentar amamentar, que precisam de se
alimentar bem, dar este tipo de comida? Liguei logo ao meu marido a pedir
socorro alimentar! Ele vinha ter conosco às 14h, hora da visita, e ficaria até
às 20h. Estava ansiosa em vê-lo! Estar no hospital, mesmo que num quarto com
mais mamãs, é bastante solitário!
Finalmente o meu rico marido
chegou carregado com cerejas, bolinhos, pão, sumo, água (muito importante!) e
muitos mimos para nos dar!
As visitas nestes dias de
internamento foram praticamente só dos meus sogros, pais, irmã e tia. Por acaso
não fomos bombardeados por visitas, o que facilitou a tranquilidade.
Quando terminou a hora da visita,
pelas 15h, ficamos só nós os três. O papá aproveitou para pegar o seu bebé ao
colinho e fazer companhia à mamã. Pelas 16h a enfermeira chegou com o “trem” do
banho. Ia exemplificar como se dá banho a um recém-nascido. Felizmente para
nós, tivemos uma aula prática na preparação para o parto que nos ajudou a ter
noção dos passos a seguir. Para além disso, tivemos a companhia da minha tia,
que é enfermeira parteira e deu o primeiro banho ao sobrinho, podendo o papá
filmar para depois “estudar” em casa.
Como disse no início, quando se
está no hospital o tempo passa “a correr”! Chegou a hora do papá regressar a
casa e a hora de jantar mais uma ementa terrível!
Estávamos exaustos e depressa
adormecemos, ainda com sol. A noite foi mais agitada, entre o choro dos outros
bebés, o choro do meu bebé, dar de mamar (nem sei como me consegui mexer!),
receber medicação e tentar dormir um bocadinho, mesmo sem posição confortável!
Mais um conselho às mamãs: levem
almofada de amamentação, pois para dormir e dar de mamar ajuda muito!
Os restantes dias de internamento
foram igualmente agitados, com o exame auditivo ao bebé no segundo dia, bem
como o exame pediátrico aos reflexos precoces do bebé.
Chegou o terceiro dia, e a
vontade enorme de “sair” dali! É um sentimento misto, pois ao mesmo tempo que
queremos sair, temos receio de não ter o apoio constante das enfermeiras e a
medicação doseada e controlada. Eu estava ainda com muitas dores e quase não
conseguia andar. Cheguei a pensar que nunca mais ia “ficar boa” e que não iria
conseguir cuidar do meu bebé! Felizmente, o meu marido tirou o primeiro mês
para ficar em casa e ajudar-me nesse processo!
Tudo muda em questão de segundos,
quando o nosso bebé sai de nós e inicia a sua vida neste mundo!
Por um lado, acaba-se o poder ir
onde queremos e quando queremos; começa a preocupação com as rotinas e o sair
apenas quando o bebé o permite. Acabam-se as noites de 8/9 horas de sono
seguidas; começam as noitadas entre mama, biberões, mudança de fraldas,
aconchego, sobressaltos cada vez que o bebé tosse ou faz um barulhinho
diferente. Acabam-se os momentos “para nós”, fazendo o que nos apraz; começam
os dias em função do bebé e todos os momentos em que ele dorme são aproveitados
na arrumação da casa (que fica caótica!), lavagem de roupas (nossas e do bebé…como
é que um ser tão pequenino suja tanta roupa!), passagens a ferro, tentativas de
cozinhar, pois sempre que estamos a começar a fazer algo, ouvimos um choro que
pede a companhia permanente da mamã. Acaba-se a capacidade de memorização;
começam as falhas de memória a meio das frases e cortes no raciocínio.
Acabam-se os cabelos lindos, fortes e saudáveis; começam as enormes perdas de
cabelo, parecendo que vamos ficar carecas mais depressa que os nossos avós!
Acabam-se as compras; começam as corridinhas ao supermercado para comprar
coisinhas para o bebé, sendo as farmácias as nossas maiores amigas em momentos
de cólicas! Acabam-se as compras de roupas para nós; começam as compras de
roupinhas para o bebé que cresce a cada semana!
Por outro lado, acabam-se os dias
solitários e chatos, sem nada para fazer; começam os dias cheios de atividade.
Acaba-se o sentimento de que não somos valorizadas; começa a dependência de nós
por um ser pequenino e indefeso. Acabam-se as nossas incapacidades; começam os “superpoderes”
de uma mãe que tudo faz pelo seu filho. Acabam-se as emoções ponderadas e superficiais;
começa uma vida cheia de emoções e sentimentos muito intensos. Acaba-se o
egoísmo e egocentrismo; começa o altruísmo e prazer em fazer tudo para que o
nosso bebé esteja bem! Acaba-se o “eu”; começa o “nós” a três. Acabam-se as
decisões individuais; começam as decisões partilhadas com o papá.
Ter um bebé não é tão simples nem
“bonito” como se pinta nos quadros e registos fotográficos! Não é um conto de
fadas que termina sempre em “viveram felizes para sempre”! Tem vários aspetos
menos positivos com os quais nos temos de habituar, que nos tiram o sono, nos
perturbam, preocupam, trazem lágrimas, incomodam. Mas o sorriso do nosso bebé
quando ouve a nossa voz e vê o nosso rosto, o calor que sentimos quando ele se
aninha no nosso colo e procura conforto, a emoção de o nosso bebé agarrar com
força o nosso dedo e não o largar, o sentimento poderoso de sermos um porto
seguro para os nossos filhos e um exemplo que eles vão modelar superam qualquer
adversidade!
Tornar-se mãe é (re)nascer,
juntamente com o nosso bebé!



