domingo, 10 de agosto de 2014

Tornar-se mãe: os primeiros dias no hospital


Uma mamã com parto sem intercorrências tem um internamento de 48 horas. Passadas essas 48 horas a mamã e bebé são (re)avaliados e, se ambos estiverem bem, têm alta.

No caso de cesariana o internamento prolonga-se para as 72 horas. Se, passados os três dias, a mamã e bebé estiverem bem, poderão ir para casa.

Para as muitas futuras ”mamãs de primeira viagem” que não sabem o que se passa durante o tempo de internamento, posso dizer que não são dias “parados” ou sem nada para fazer. Pelo contrário! Posso partilhar a minha experiência de um parto por cesariana.

O nosso bebé nasceu às 23h36 do dia 14 de maio de 2014. Quando ele nasceu, ouvi o seu forte choro e, minutos depois, pude dar-lhe muitos beijinhos quando o colocaram perto da minha cara. O bebé fez contacto pele a pele com o pai, pois comigo era impossível.

Depois de cozida (por dentro) e agrafada (por fora), e depois de me terem feito um penso muitíssimo apertado que me provocava dores tremendas, fui para a sala de recobro, onde tive de esperar alguns longos minutos até me trazerem o bebé. Puseram o meu filhinho deitado a meu lado e incentivaram-me a dar de mamar. É uma sensação estranha, pois nem nós nem o bebé sabemos bem o que fazer. É o puro “instinto” que nos diz como fazê-lo, a ambos. O bebé começou logo a mamar e só então me senti “mãe”. É estranho dizer isso, mas foi o que senti.

O pai pode estar a meu lado nesse momento, mas quando me levaram para o quarto na ala de internamento, tivemos de nos despedir do papá pois a hora já era avançada.

Chegamos ao quarto, estava tudo escuro e silencioso. A auxiliar perguntou-me se queria um chá e umas bolachinhas e eu aceitei. Quando trouxe a ceia, disse que se sentisse dores ou precisasse de algo, premisse o botão da campainha, mesmo ao lado da cama. O bebé ficou deitadinho do meu lado direito, calmo e sereno. Estávamos ambos esgotados do dia anterior. A meu lado esquerdo ressonava uma mamã, tapada pela cortina. À minha frente estavam mais duas mamãs e seus bebés. Uma bebé chorava constantemente. A sua mamã não sabia bem o que fazer para acalmá-la. Os outros bebés dormiam, juntamente com o meu.

Já de madrugada as dores começaram a apertar. Tinha o soro a correr na mão direita e uma algália que me aliviava a bexiga. Toquei, pela primeira vez, à campainha. Uma auxiliar pouco simpática veio à porta: “quem tocou?”. Timidamente respondi, “fui eu”. “Diga”, respondeu secamente. “Estou com muitas dores, já não aguento mais”. A auxiliar deu meia volta e saiu. Calculei que fosse chamar a enfermeira o que, de facto, aconteceu. A enfermeira já trazia uma dose de Nolotil, que me introduziu no soro sem falar muito. Disse apenas que, se tivesse mais dores, a chamasse novamente.

A noite passou-se e, às 6h30, chegou uma “equipa” preparada para me levantar e dar banho. Puseram o bebé no berço e disseram-me para me levantar e preparar as coisas para o banho. Lentamente levantei a cabeça, depois com muito custo rolei para colocar as pernas no chão e sentar-me na cama. As dores eram excruciantes. Depois de esperar uns minutos para não desmaiar, levantei-me com a ajuda da enfermeira e preparei as coisas para o banho. Um conselho às futuras mamãs: levem os produtos de higiene (gel de banho apenas, para o primeiro banho), toalha de banho e toalha de bidé, bem como uma camisa de dormir e umas cuecas ou fraldas, já separados em sacos individuais para cada dia de internamento. É complicado estar à procura do que precisamos numa mala cheia, para além de não ser fácil transportar todos aqueles elementos na mão para a casa de banho.

Escolhi usar fraldas de incontinência em vez de cuecas descartáveis, o que me facilitou em termos práticos: não me sujei com sangue, senti-me mais aconchegada na zona do abdómen e senti-me mais confortável a nível de movimentos. Aconselho vivamente!

O banho deu-se, com um avental de plástico para não molhar o penso. Soube-me tão bem! Foi a primeira vez que deixei o meu bebé a cuidado de outros. Quando saí do banho, deitei-me novamente. Fui observada pela enfermeira que me palpou a barriga para sentir o útero, apertou-me os mamilos para ver se tinha leite e viu se estava a sangrar muito. Estes procedimentos demoraram algum tempo, chegando a hora do pequeno almoço: uma carcaça com manteiga e leite com café ou simples.

O meu bebé não tinha chorado essa noite nem tinha “pedido” mais comida. Pelo contrário, estava aparentemente mal disposto, com vómitos. Saía uma espécie de espuma branca sempre que um vómito chegava. Chamei a enfermeira: “é normal acontecer?”. Esta é a pergunta mais frequente e mais utilizada depois que um bebé nasce! Não sabemos nada, e tudo o que acontece é novidade para nós e para o bebé! Perguntamo-nos muitas e muitas vezes: “é normal?”. Sim, é normal! Tudo é normal nesta fase inicial, mas para uma recém-mamã tudo parece estranho! O que estava a acontecer é que, como o bebé não tinha sido “espremido” pelo canal pélvico, como acontece aos bebés de parto normal, logo, tinha fluídos acumulados no estômago que precisava libertar.

Depois de lhe mudar a fralda, a enfermeira perguntou se o bebé fizera cocó e chichi. Respondi que apenas tinha feito chichi, pelo que a enfermeira me deu um bebé gel para aplicar. Senti uma estranheza enorme: já? O bebé mal tinha saído de mim e começava já a ser “entupido” de coisas! Mas teve de ser. Fez o bebé gel e, passado algum tempo fez o seu primeiro cocó verde escuro e muito gelatinoso! Era o mecónio.

Entre dar de mamar, tratar dos mamilos, tentar descansar, mudar fraldas e ser observada pelas enfermeiras, chegou o momento das vacinas. Coitadinho do meu bebé! Tinha nascido na noite anterior e já ia ser picado! Levou duas vacinas: Hepatite B (1ª dose) e BCG.

Com esta azáfama nem me apercebi que era hora de almoço. Vieram os tabuleiros e fomos almoçar. Mal me consegui sentar na cadeira…aliás, mal me conseguia mexer com as dores intensas. Tentei engolir um pouco de peixe frito terrivelmente seco, uns bróculos sem sal e um pouco de puré igualmente insonso! Que coisa horrível comer comida sem sal! A sopa era praticamente puré de batata com uns fios de couve a boiar. A sobremesa: uma laranja! Sinceramente! Para mulheres a tentar amamentar, que precisam de se alimentar bem, dar este tipo de comida? Liguei logo ao meu marido a pedir socorro alimentar! Ele vinha ter conosco às 14h, hora da visita, e ficaria até às 20h. Estava ansiosa em vê-lo! Estar no hospital, mesmo que num quarto com mais mamãs, é bastante solitário!

Finalmente o meu rico marido chegou carregado com cerejas, bolinhos, pão, sumo, água (muito importante!) e muitos mimos para nos dar!

As visitas nestes dias de internamento foram praticamente só dos meus sogros, pais, irmã e tia. Por acaso não fomos bombardeados por visitas, o que facilitou a tranquilidade.

Quando terminou a hora da visita, pelas 15h, ficamos só nós os três. O papá aproveitou para pegar o seu bebé ao colinho e fazer companhia à mamã. Pelas 16h a enfermeira chegou com o “trem” do banho. Ia exemplificar como se dá banho a um recém-nascido. Felizmente para nós, tivemos uma aula prática na preparação para o parto que nos ajudou a ter noção dos passos a seguir. Para além disso, tivemos a companhia da minha tia, que é enfermeira parteira e deu o primeiro banho ao sobrinho, podendo o papá filmar para depois “estudar” em casa.

Como disse no início, quando se está no hospital o tempo passa “a correr”! Chegou a hora do papá regressar a casa e a hora de jantar mais uma ementa terrível!

Estávamos exaustos e depressa adormecemos, ainda com sol. A noite foi mais agitada, entre o choro dos outros bebés, o choro do meu bebé, dar de mamar (nem sei como me consegui mexer!), receber medicação e tentar dormir um bocadinho, mesmo sem posição confortável!

Mais um conselho às mamãs: levem almofada de amamentação, pois para dormir e dar de mamar ajuda muito!

Os restantes dias de internamento foram igualmente agitados, com o exame auditivo ao bebé no segundo dia, bem como o exame pediátrico aos reflexos precoces do bebé.

Chegou o terceiro dia, e a vontade enorme de “sair” dali! É um sentimento misto, pois ao mesmo tempo que queremos sair, temos receio de não ter o apoio constante das enfermeiras e a medicação doseada e controlada. Eu estava ainda com muitas dores e quase não conseguia andar. Cheguei a pensar que nunca mais ia “ficar boa” e que não iria conseguir cuidar do meu bebé! Felizmente, o meu marido tirou o primeiro mês para ficar em casa e ajudar-me nesse processo!

Tudo muda em questão de segundos, quando o nosso bebé sai de nós e inicia a sua vida neste mundo!

Por um lado, acaba-se o poder ir onde queremos e quando queremos; começa a preocupação com as rotinas e o sair apenas quando o bebé o permite. Acabam-se as noites de 8/9 horas de sono seguidas; começam as noitadas entre mama, biberões, mudança de fraldas, aconchego, sobressaltos cada vez que o bebé tosse ou faz um barulhinho diferente. Acabam-se os momentos “para nós”, fazendo o que nos apraz; começam os dias em função do bebé e todos os momentos em que ele dorme são aproveitados na arrumação da casa (que fica caótica!), lavagem de roupas (nossas e do bebé…como é que um ser tão pequenino suja tanta roupa!), passagens a ferro, tentativas de cozinhar, pois sempre que estamos a começar a fazer algo, ouvimos um choro que pede a companhia permanente da mamã. Acaba-se a capacidade de memorização; começam as falhas de memória a meio das frases e cortes no raciocínio. Acabam-se os cabelos lindos, fortes e saudáveis; começam as enormes perdas de cabelo, parecendo que vamos ficar carecas mais depressa que os nossos avós! Acabam-se as compras; começam as corridinhas ao supermercado para comprar coisinhas para o bebé, sendo as farmácias as nossas maiores amigas em momentos de cólicas! Acabam-se as compras de roupas para nós; começam as compras de roupinhas para o bebé que cresce a cada semana!

Por outro lado, acabam-se os dias solitários e chatos, sem nada para fazer; começam os dias cheios de atividade. Acaba-se o sentimento de que não somos valorizadas; começa a dependência de nós por um ser pequenino e indefeso. Acabam-se as nossas incapacidades; começam os “superpoderes” de uma mãe que tudo faz pelo seu filho. Acabam-se as emoções ponderadas e superficiais; começa uma vida cheia de emoções e sentimentos muito intensos. Acaba-se o egoísmo e egocentrismo; começa o altruísmo e prazer em fazer tudo para que o nosso bebé esteja bem! Acaba-se o “eu”; começa o “nós” a três. Acabam-se as decisões individuais; começam as decisões partilhadas com o papá.

Ter um bebé não é tão simples nem “bonito” como se pinta nos quadros e registos fotográficos! Não é um conto de fadas que termina sempre em “viveram felizes para sempre”! Tem vários aspetos menos positivos com os quais nos temos de habituar, que nos tiram o sono, nos perturbam, preocupam, trazem lágrimas, incomodam. Mas o sorriso do nosso bebé quando ouve a nossa voz e vê o nosso rosto, o calor que sentimos quando ele se aninha no nosso colo e procura conforto, a emoção de o nosso bebé agarrar com força o nosso dedo e não o largar, o sentimento poderoso de sermos um porto seguro para os nossos filhos e um exemplo que eles vão modelar superam qualquer adversidade!   

Tornar-se mãe é (re)nascer, juntamente com o nosso bebé!
 

terça-feira, 8 de julho de 2014

Processo de luto


Quando um sonho nasce em nos, é acarinhado, nutrido e reforçado durante algum tempo até que ou se concretiza, ou não se concretiza e, então, morre. Mas quando alguém / algo morre, perto ou em nós, é necessário fazer o luto! 
 
Tendo em conta que o nosso sonho “morreu”, necessitamos (pelo menos eu) iniciar o nosso processo de luto ou grieving process. O verbo inglês to grief engloba uma noção mais realista do que acontece com uma pessoa do que o nosso substantivo luto, o qual é mais vago a abrangente. De facto, to grief algo ou alguém implica chorar, soluçar, lamentar, prantear. Significa demonstrar fisicamente que a nossa alma está profundamente abalada com a perda.

 
“Sabe-se que o luto compreende fases e reações próprias, que o enlutado precisa experimentar para ‘resolver o luto’ de forma saudável.”[1] Assim, o processo de luto engloba várias fases ou estágios, definidas por vários autores, entre eles, John Bowlby (em 1990, pai da vinculação) e Elizabeth Kübler-Ross (2005). Resumindo ambas, encontramos as seguintes fases[2]: 1) o choque ou entorpecimento; 2) a negação ou isolamento; 3) a desorganização emocional ou desespero com manifestações de tristeza profunda ou revolta; 4) a reorganização emocional ou aceitação que inclui a capacidade de negociação consigo mesmo.
 
Em cada fase a pessoa pode reagir de formas diferentes e até mesmo estagnar nessa fase, parando o processo de luto e nunca conseguindo superar a perda. 

 
1) Fase de choque ou entorpecimento - “Não consigo chorar…”

 
Nesta fase as nossas emoções parecem estar adormecidas e não conseguimos "sentir" nada: nem tristeza, nem ansiedade, nem revolta, nem saudade. Pensamos que “amanhã” acordaremos e veremos aquela pessoa querida… ou que estaremos na mesma condição que antes. Tudo à nossa volta parece baço. As vozes, cores, cheiros e luzes parecem distorcidas e só reforçam esta esperança tola de que estejamos apenas a sonhar… um sonho muito mau que terminará em breve!

Esta reação emocional funciona como meio de defesa face à imensa dor sentida. O enorme vazio que a perda trouxe é espelhado nas emoções, as quais sofrem também um vazio inicial.

 

2) Fase de negação ou isolamento - "Isto não pode ter acontecido comigo!"

Nesta fase a dor de se ter perdido alguém/algo torna-se tão real que a tendência é negar o sucedido. Existe um enorme sentimento de incredulidade na situação que arrancou de nós um ser ou um sonho e desejamos arduamente que seja apenas um pesadelo… uma brincadeira de mau gosto… algo passageiro! Negamos que seja possível ter acontecido conosco. Queremos tanto acreditar que tudo não passou de um sonho que continuamos a viver como se tal não tivesse acontecido.

As pessoas que ficam "presas" nestas fases tornam-se frias emocionalmente e fecham-se na sua descrença. Não falam do assunto pois, afinal, ele não aconteceu para elas. As consequências são a longo prazo, pois mais cedo ou mais tarde a realidade irá bater-lhes à porta e terão de admiti-la. Nessa altura viverão as próximas fases com maior intensidade e descontrolo emocional.

 
3) Fase de desorganização emocional ou desespero com manifestações de tristeza profunda ou revolta - "Porquê comigo/eu?"

Uma vez ultrapassada a primeira fase, surge um turbilhão de perguntas sem respostas lógicas. "Porquê eu?", "Porquê comigo?", "Como é possível...?" São algumas questões que se levantam sem respostas possíveis. A falta de respostas lógicas e válidas traz um profundo sentimento de mágoa, revolta e angústia pela nossa impotência face à situação.
Todas as pessoas são diferentes e cada um reage consoante o seu padrão emocional. Se alguns têm maior tendência em revoltar-se e exteriorizar os seus sentimentos com maior intensidade e indignação, outros preferem fechar-se sobre a sua mágoa e choram, sozinhos, a sua perda.
Todas as formas de expressão são importantes nesta fase. Convém, no entanto, que a dor seja exteriorizada e não interiorizada para que o processo de luto ocorra de forma regular. É, também, importante que esta fase não seja demasiado longa, pois poderá dar origem a perturbações emocionais como alterações no comportamento, nomeadamente comportamentos violentos, e depressão.

4) Fase de reorganização emocional ou aceitação da perda que inclui a capacidade de negociação consigo mesmo - “Agora consigo falar sobre o que me aconteceu”

Nesta última fase dá-se a catarse. Uma vez que os sentimentos e emoções já foram expressos e a dor foi ouvida (nem que seja pela própria pessoa), torna-se possível “arrumar” pensamentos e refletir sobre o sucedido.
As recordações reavivam-se, as expectativas reescrevem-se, as frustrações tornam-se impulsionadores de mudanças e as esperanças vestem a roupa da realidade através da resignação.

É fundamental o diálogo nesta última fase, nomeadamente, o diálogo interno. Fazer as pazes consigo mesmo e libertar-se da culpa de falhas possíveis ou imaginárias é essencial para a “cura”. Desabafar com familiares e amigos próximos também é fundamental, pois o seu apoio incondicional faz a diferença para uma boa recuperação emocional face a uma perda significativa.
 
Infelizmente, na nossa cultura ocidental, o luto é imediatamente associado a morte. Por sua vez, a morte é assunto ainda bastante “proibido” e pouco verbalizado. Há uma enorme tendência a preferir eufemismos quando nos referimos à morte. Temos ainda muito receio de a encarar como sendo parte da vida. Temos receio porque é um campo desconhecido… um campo onde não vemos a saída… um campo vasto mas escuro.

De facto, o luto é muito mais do que um processo ligado à morte física de pessoas. É um processo que se inicia sempre que há uma perda significativa na nossa vida: um emprego, uma expectativa, um sonho, um objetivo, um casamento, um namoro, um/a amig@, uma relação com um familiar, por exemplo.
Tendo em conta o relato do meu parto difícil, considero-me abençoada pois consegui superar o processo de luto de um parto sonhado! Tive o suporte emocional em familiares e no meu marido, fundamentais para me sentir capaz de ultrapassar a violência por que passei.
Consegui ter momentos para chorar, momentos para gritar a minha revolta, momentos para desabafar e momentos para refletir. Graças a este processo completo posso dizer que tenho, hoje, mais força para lutar pelos meus direitos e seguir em frente, esperando reescrever a minha memória do parto quando nascer @ meu/minha segund@ filh@.

Encaremos o luto como um dos vários processos de vida. Como parte do nosso desenvolvimento pessoal e espiritual. Lutemos por conquistar a harmonia face às perdas da nossa vida! Só assim conseguiremos alcançar a paz de espírito e viver felizes com o que a vida nos dá.

Os obstáculos devem servir de impulso para o sucesso e não de âncora para o fracasso!



[1] Moura, C. M. (2006). Uma avaliação da vivência do luto conforme o modo de morte. Dissertação de Mestrado. Universidade Brasília. Página 13.
[2] Basso, L. A. & Wainer, R. (2011). Luto e perdas repentinas: Contribuições da Terapia Cognitivo-Comportamental. Revista Brasileira de Terapias Cognitivas, 7 (1): 35-43.

quarta-feira, 2 de julho de 2014

Direitos Universais no Nascimento


Existem direitos universais do nascimento, decorrentes dos direitos universais humanos, que são fundamentais para que o casal grávido não seja vítima de abusos por parte das autoridades médicas.

Embora possa parecer desnecessário existirem leis que salvaguardam os direitos das mulheres durante o nascimento de uma criança numa sociedade dita desenvolvida e civilizada, faz todo o sentido pois nem sempre estes são respeitados e salvaguardados por técnicos qualificados, nomeadamente, no ramo da saúde.

Os direitos humanos universais pretendem salvaguardar a dignidade de toda e qualquer pessoa, em todas as circunstâncias e dimensões. Trata-se de princípios jurídicos proclamados pela Organização das Nações Unidas (ONU)[1], em 1948. Com o passar do tempo surgiram várias nuances dos direitos humanos como, por exemplo, os direitos humanos da criança, direitos humanos da pessoa com deficiência, direitos humanos da grávida[2] e direitos humanos do nascimento[3]. Quanto a estes últimos importa clarifica-los para que muitas mulheres e casais grávidos não sofram discriminação nem abusos contra algo que é inerente à sua condição enquanto seres humanos livres para pensar, escolher e decidir sobre o modo como desejam vivenciar este momento em que irão conhecer o bem mais precioso do seu mundo, isto é, o momento do parto.

Os direitos humanos no nascimento surgiram da preocupação crescente de advogados, bioéticos, médicos, parteiras, doulas, pais e antropólogos, numa conferência em Hague, em 2012 e continuaram a ser desenvolvidos em duas outras conferências nos E.U.A. e Bélgica, em 2013. Incidem em 6 pressupostos básicos, estando todos diretamente implícitos nos direitos universais humanos[4], são eles:

1) Direito ao Consentimento Informado

Encontra-se diretamente relacionado com o direito à recusa do tratamento médico e diz respeito aos direitos universais humanos da saúde, autonomia e autoridade sobre o próprio corpo. Efetivamente, quando qualquer profissional de saúde recomenda um tratamento ou intervenção tem o dever legal de informar o paciente acerca dos benefícios e riscos implícitos bem como todas as outras opções disponíveis. Cabe ao paciente escolher conscientemente, com base na informação dada, aceitar ou recusar a intervenção ou tratamento propostos com base nas suas necessidades ou valores pessoais.

 

2) Direito à Recusa do Tratamento Médico

Implica que o paciente detém a autoridade legal nas decisões sobre os seus cuidados, baseando-se nos direitos de autonomia sobre o próprio corpo. Por outras palavras, se o paciente "é dono" do seu corpo, logo, detém o poder de decidir sobre o que será feito com ele.

A decisão de uma paciente de recusar tratamento médico não tem que ser razoável ao médico ou qualquer outra pessoa pois trata-se de uma decisão pessoal, feita com base numa variedade de fatores e vivências pessoais. Em última instância, a maioria dos pacientes optam por seguir as recomendações dos seus médicos, no entanto, “aceitar” só faz sentido quando também existe a opção de “recusar”.

Este direito significa, igualmente, não existe nenhuma obrigação legal de receber tratamento num hospital, podendo sair a qualquer momento. Significa que ninguém deve fazer uma intervenção ou tratamento sem primeiro obter o consentimento do paciente. Significa que a parturiente tem o direito de recusar uma oferta de cirurgia cesariana ou qualquer outra intervenção obstétrica, caso assim o entenda.

A tomada de decisão em conjunto a equipa médica é uma ambição admirável, pois toda a mulher anseia “dar à luz” tendo um “provedor” em quem confiar. Porém, em caso de desacordo sobre o que fazer em determinado momento de um nascimento, existe apenas uma pessoa que tem a autoridade para tomar a decisão final, responsabilizando-se pela mesma: a mulher.

3) Direito à Saúde

Cada pessoa deve ser capaz de aceder aos serviços de saúde necessários para manter a sua saúde e bem-estar. A Organização Mundial de Saúde (OMS) define este direito incluindo o "mais alto nível de saúde possível ", bem como "um estado de completo desenvolvimento físico, mental e bem-estar social e não meramente a ausência de doença ou enfermidade." Este conceito de saúde ressalta a necessidade de cuidados na maternidade que atendam não só para a sobrevivência física da mãe e do bebé, mas que respeitem o seu bem-estar psicológico e emocional durante o parto, depois do nascimento, e nos próximos anos após o nascimento.

Nos cuidados obstétricos, o direito à saúde exige o acesso a preços acessíveis para toda a gama de serviços de saúde necessários durante a gravidez, parto e pós-parto. Inclui acesso a:

-        Um ambiente seguro, higiénico durante o trabalho de parto, parto e pós-parto;

-        Cuidados e serviços de urgência obstétrica;

-        Medicamentos essenciais para a saúde reprodutiva;

-        Parteiras qualificadas

4) Direito a Tratamento Igualitário

As desigualdades na assistência à maternidade podem ocorrer a nível sistémico e social, abrangendo problemas como a pobreza, nutrição e acesso aos cuidados de saúde. A discriminação também inibe a assistência à maternidade, a nível individual, quando a mulher é desrespeitada, não é ouvida, ou é tratada como "inferior" pelos prestadores de cuidados de saúde.

O direito humano à igualdade de tratamento implica que as pessoas devem ter as mesmas opções e apoios nos cuidados de maternidade, não sendo estigmatizadas com base em características pessoais. Este direito é violado quando uma pessoa é tratada de forma diferente, sem razão clínica evidente mas com base em fatores físicos como a idade, obesidade, deficiência ou outros.

5) Direito à Privacidade

Este direito protege a capacidade de cada pessoa tomar decisões pessoais sobre sexualidade, reprodução e família, sem interferências. Tal como o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos observou, "o direito sobre a decisão de se tornar um pai inclui o direito de escolher as circunstâncias de se tornar pai", e "as circunstâncias do parto incontestavelmente fazem parte da sua vida privada." O direito à privacidade exige que o sistema jurídico e o sistema de saúde apoiem as escolhas de saúde reprodutiva de uma forma simples e direta, sem impor restrições ou limitações com base em julgamentos ou preferências morais de outras pessoas.

As necessidades e decisões das mulheres sobre a privacidade durante o trabalho de parto, sobre o alívio da dor, sobre a assistência médica e cirurgia são diferentes, porque todas as mulheres são diferentes.

6) Direito à Vida

O direito à vida é o direito sobre o qual todos os outros direitos dependem. A promoção do direito das mulheres à vida no contexto dos cuidados de maternidade requer a consideração de toda a gama de circunstâncias sociais, económicas e políticas das mulheres. A saúde reprodutiva maximiza a segurança e a sobrevivência quando serve para apoiar as mulheres, em vez de controlá-las.

Tendo em conta estes 6 pressupostos cabe-nos a nós, mulheres, detentoras deste poder maravilhoso de gerar e dar vida, munir-nos de argumentos fortes bem como trabalhar a nossa assertividade no que consta a gestação, trabalho de parto, parto e pós-parto. Cabe-nos fazer a diferença numa sociedade que ainda está muito longe do respeito pela dignidade e individualidade humanas no nascimento. Cabe-nos mudar uma mentalidade baseada em “cargos”, “títulos” e “estatutos” que supostamente conferem superioridade ou poder aos que se encontram nas frentes dos serviços obstétricos. Cabe-nos mostrar-lhes que quem detém todo e qualquer poder de decisão em como quer conduzir o seu bebé ao mundo é a mulher que o carregou durante, pelo menos, 37 semanas e que conhece o seu corpo melhor do que ninguém!

Ainda vivemos num país com liberdade de pensamento, expressão e decisão, portanto, as mulheres devem decidir como e quando trarão os seus tesouros mais preciosos a este mundo. Devem ser apoiadas e não coagidas pelos serviços de saúde.

Quando recordo os momentos que vivi aquando do trabalho de parto e parto propriamente dito, entristeço-me pela falta de profissionalismo e respeito pelos direitos humanos no nascimento relativamente a nós, enquanto casal grávido com plano de parto devidamente assinado pelo obstetra e enfermeira parteira vigilantes durante a gravidez. Lamento que o mesmo tenha sido ignorado, de tal forma que nem consta no processo de parto pois foi devolvido à saída do hospital. Lamento que o médico responsável pela equipa tenha exercido um jogo psicológico tal que me travou o trabalho de parto devido a questões puramente emocionais de stress profundo. Lamento que não tenha confirmado informações dadas por enfermeiras nervosas, que não tenha utilizado todos os recursos para confirmar ou infirmar um diagnóstico absurdo de sofrimento fetal que acabou por ser provado nulo com o Índice Apgar 10-10 do meu bebé.

Espero uma nova oportunidade para poder realizar um sonho que é ter um filho na água na cidade e hospital onde nasci, oportunidade essa que apenas será possível dentro de uns anos devido à cesariana a que fui sujeita sem real necessidade. É por este motivo que escrevo: para que todas as mulheres possam “dar à luz” num ambiente humanizado e o mais natural possível. Esse é um direito que jamais deveria ser negado!

 


 

 



[1] Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da  Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948, disponível para consulta online em https://dre.pt/util/pdfs/files/dudh.pdf
[2] Disponível para consulta online no Portal do Cidadão, http://www.portaldocidadao.pt/PORTAL/pt/Dossiers/DOS_2+++estar+gravida.htm?passo=2
[3] Disponível para consulta online em http://humanrightsinchildbirth.com/universal-rights/
[4] Ibid.

Um parto difícil...


Depois de tanto desejar a tua vinda começo a sentir-me diferente. Estamos a 13 de maio de 2014. Adormeço cedo no sofá, exausta depois de uma noite anterior mal dormida com contrações esporádicas e muitas idas à casa de banho, enquanto o papá vê a novela da noite. Quando esta termina, ele leva-me gentilmente até à cama onde costumava descansar até de madrugada. Mas algo muda nesta noite.

À meia noite e meia acordo com dores na zona lombar. Levanto-me e vou à casa de banho mas as dores intensificam-se e começo a respirar mais profundamente. Levanto-me e vou andar pela cozinha e sala. O papá apercebeu-se que eu estava com dores e veio ter comigo, perguntando-me se queria ir para o hospital. Disse-lhe que ainda não e que iria estar atenta e ver de quanto em quanto tempo surgiam estas dores. Começam por ser de 10 em 10 minutos. Passam para 8… 6… 5… 3 minutos de intervalo entre si…mas aos 3 minutos tornam-se novamente irregulares. Voltam aos 8… 6… 5… Vou tomar um banho teste de imersão e as dores reduzem a sua intensidade. O tempo passa e as contrações retomam o seu curso: 8…6…5…3 minutos. São 5h da manhã e não dormimos nada. Decidimos ir para o hospital. Levamos a mala do parto, o computador e dois sorrisos na cara. Estamos felizes porque vens a caminho e queremos dizer a toda a gente!! Mas são 5h da manhã e contemo-nos.

Chegamos ao hospital, mas pela hora temos de entrar pela urgência geral. Faço a inscrição e o administrativo chama a auxiliar que me levará à urgência de obstetrícia. O papá fica na sala de espera, ansioso e cansado, esperando por notícias.

No caminho para a urgência de obstetrícia, o sorriso que levo esmorona-se quando a auxiliar desbloqueia o silêncio com a pergunta: “Não podia esperar até de manhã?” O meu coração acelera abruptamente e causa-me uma náusea. “Porquê?”, respondo quase sem voz. “Porque a esta hora elas vão recebê-la muito mal! São cá umas víboras!” O nó que sinto na garganta quase me provoca um vómito e sinto-me dormente. Peço-lhe para voltarmos para trás e digo que virei mais tarde! Começo a duvidar do que sinto e só quero é ir-me embora, mas a auxiliar agarra-me no braço e diz: “Agora não a posso deixar sair”. Sinto-me presa. Quero fugir dali mas não posso. Que ideia a nossa! Devíamos ter esperado mais, penso. Se calhar o que sentia não era nada e estou a ser ridícula na minha ansiedade, continuo a pensar.

Entretanto a auxiliar toca à campainha mas engana-se no botão pelo que lhe respondem um pouco mal do outro lado. Ela olha para mim e sorri como quem diz: “Não te disse?” Toca para o sítio correto e abrem-nos a porta. Quase a desmaiar de nervos, olho para uma enfermeira simpática que me recebe com carinho. Desmonto-me em desculpas pela hora, ao que a enfermeira sorri e responde “Ninguém escolhe a hora em que o seu bebé vai nascer!” Descontraio um pouco enquanto nos dirigimos para a cadeira do CTG. Sento-me e a enfermeira procura o bebé, palpando a barriga e colocando o foco no local correto. Seguro um dispositivo com a mão esquerda cujo botão aperto sempre que te sinto mexer. O CTG começa e a enfermeira procura os meus documentos para dar início ao internamento. Após alguns minutos de CTG, a enfermeira confirma a regularidade das contrações, intensidade das mesmas e movimentos fetais, preenchendo então o formulário para internamento.  

Subitamente, entre dois movimentos teus fortes, o batimento cardíaco captado desce para os 82/83, permanecendo assim durante alguns segundos. Pergunto à enfermeira se “é normal” acontecer, ao que ela responde “Normal, normal não é. Mas pode acontecer. Já chamo o médico para confirmar a situação.” A sua calma tranquilizou-me e no meio de outros movimentos teus o batimento cardíaco regressa à normalidade, isto é, 140/150.

Sempre gostaste de te mexer muito dentro de mim, e mesmo com pouco espaço, continuavas a dar piruetas cá dentro, procurando a melhor posição para te “encaixares”.

O médico apareceu poucos minutos depois e verificou o CTG. De facto havia algo, mas desvalorizou a situação e disse-me “Vá andar e volte daqui a duas horinhas.” Eu saí e fui ter com o papá à sala de espera das urgências gerais. Expliquei o que tinha acontecido e fomos andar, tranquilamente e felizes! O papá ligou logo para o trabalho a avisar que não iria nesse dia (14 de maio de 2014) porque tu ias nascer. Ligamos à família e dissemos que vinhas a caminho, mas  que avisaríamos quando chegasse a tua hora! Pedi ao teu avô médico que não viesse ao hospital porque não estávamos lá e que o chamaria quando voltássemos.

Depois de vir desde o hospital até ao parque urbano de Albarquel e voltar, entramos na sala de espera das urgências obstétricas por volta das 9h45. Fiquei muito nervosa ao ver que o teu avô já lá estava, mais ansioso do que nós! Eu tinha-lhe pedido que não fosse… mas em vão. Já tinha falado com a equipa, que era “cinco estrelas”. Conhecia o médico responsável pois tinham feito internamento juntos e estava lá uma enfermeira conhecida, mais antiga. Descansei por saber que a enfermeira que nos tinha acompanhado durante a gravidez nas aulas de preparação para o parto também lá estava.

A porta de entrada abriu-se e vinha a sair uma médica pouco simpática que assim que me viu e que reparou que era filha de um colega levou-me pelo braço e disse “então vamos lá despachar isto antes de eu ir beber café”. Levou-me para uma sala de observações e fez-me um toque vaginal. Tinha cerca de 2 cm de dilatação e o colo do útero ainda muito rijo.

Saímos da sala e senti-me perdida. Para onde ir? O que fazer agora? Até que encontrei a enfermeira que me tinha acompanhado durante a gravidez. Ela avisou-me que o médico responsável pela equipa era contra os partos na água e que estava nesse momento a “fazer a cabeça ao teu pai” para que desistisse da nossa decisão com base no primeiro CTG. Estavam todos estupefactos pelo facto de me terem deixado sair, pois de acordo com o “tal” CTG nem devia ter saído da sala, quanto mais do hospital.

Fui, então, abordada pelo médico responsável que me disse muito carinhosamente: “Minha querida, sabes que com este CTG não te posso deixar ter o bebé na água. Eu não me vou responsabilizar se correr mal. Não te posso assinar os papéis para o teres na água porque não há nada que comprove que é seguro. Sabes, já não é necessário as mulheres sofrerem para terem os filhos… a ciência evoluiu e já não estamos na época das cavernas (risos)… já podes ter sem dor e acelerar o processo para não teres de ficar aqui o dia todo à espera da dilatação. Pensa nisso!”. Eu agradeci a gentileza mas disse que nos tínhamos preparado para te receber na água e que gostaríamos muito que assim fosse. Ele referiu que tínhamos de monitorizar mais vezes para ver se os novos CTG não apresentavam alterações, e que “logo se vê”.

Não perdi imediatamente a esperança, mas aumentei os níveis de ansiedade. A pressão era, agora, mais do que muita! Tinha de fazer a dilatação e tinha de correr tudo bem com os novos CTG… que pressão! O papá entrou para junto de mim e transmitiu-me alguma segurança, mas estava tão apreensivo quanto eu. A enfermeira mais velha ofereceu o quarto adjacente à sala de CTG para que pudesse utilizar o chuveiro com a bola de pilates e para que estivéssemos mais tranquilos. Apesar de sermos bem tratados, estávamos desconfortáveis com toda a situação e apreensivos. A cada meia hora vinha a enfermeira mais velha para me “observar” e o médico aparecia para me mostrar os papéis do consentimento informado sobre a epidural. Repetia que não estávamos na era pré-histórica e que podia “despachar isto” mais depressa de pusesse algo “a correr na veia”. Indignada com tanta insistência, agradecia cordialmente mas assim que ele saía do quarto partilhava com o papá as dúvidas que iam surgindo! E se tu estivesses realmente em sofrimento? E se fosse mesmo melhor acelerar o processo, visto que o trabalho de parto tinha estagnado nos 2,5 cm de dilatação e as contrações estavam a diminuir substancialmente de intensidade e frequência? E se não pudesse ter-te na água?

Só me apetecia chorar. Estava arrasada emocionalmente! O teu papá consolava-me e dava-me forças para continuar. Dizia-me que estava lá comigo para o que decidisse e que o que interessava é que estivesses bem. A enfermeira que nos acompanhou também me consolava e dava ânimo dizendo que o primeiro CTG não era significativo e que eu ia conseguir receber-te como tínhamos sonhado! O enfermeiro chefe também nos apoiou e disse “Se precisarem ficar aqui uma semana a fazer a dilatação, ficam! Ninguém está com pressa!”

Mas as horas passavam, a pressão aumentava e tu não davas sinais de querer “sair”. Pudera! Com tanto entrave e um ambiente tão estranho, quem gostaria de sair de dentro de um meio confortável e seguro?

As horas passaram e chegou a hora de almoço. Disseram-nos para ir ao refeitório almoçar e apanhar ar. Regressaríamos quando quiséssemos. Nós fomos. Descemos no elevador e fomos até ao refeitório. Estava agoniada das dores e stress. Não me apetecia comer nada, só queria que tu nascesses na água! Só me apetecia chorar e sair dali!

O papá comeu um prato com strogonoff de peru e eu comi uma sandes de ovo e bebi um chá de frutos vermelhos para ajudar à dilatação. Sentamo-nos na esplanada a apanhar um ar quente e pouco agradável, tal como o dia estava a ser! Estávamos ambos exaustos e sem forças emocionais para continuar naquela pressão. As contrações começaram novamente a “apertar” e voltamos para a urgência de obstetrícia.

Assim que lá entramos, mais um toque vaginal em plena contração e mais um diagnóstico avassalador: “2,5 cm de dilatação e colo do útero rijíssimo!” Não admira, pois tinha sido “tocada” em plena contração…

O médico voltou a referir que não assinaria os papéis para te ter na água e que não precisava estar a arrastar “isto” tanto tempo. Como se “isto” fosse algo banal… Até poderia ser para alguém que assiste a centenas de partos por ano, mas para nós “isto” era a tua chegada à nossa família! Era o momento em que te veríamos e tocaríamos pela primeira vez. Era o momento em que te poderíamos dizer, olhos nos olhos, que te amamos mais do que tudo nesta vida! Era o momento em que choraríamos de emoção por te sentir junto ao nosso peito. Era o nosso momento de amor mais intenso que existe no mundo! Mais ainda do que o momento de amor em que foste concebido!

As horas passaram e nada se alterava. O papá chegou a cochilar na cama do quarto em que estávamos, mas foi logo repreendido pelo médico que disse que as suas calças de ganga transportavam bactérias da rua para dentro do hospital. O papá ficou envergonhado e sentou-se na cadeira, onde acabou por adormecer de tanto cansaço!

O turno dos enfermeiros mudou. Entrei em pânico. Ia-se embora a “nossa” enfermeira! Ia-se embora o nosso pilar emocional! E agora? Embora ela tenha referenciado outra enfermeira de sua confiança que tinha entrado no turno seguinte, não fiquei descansada. Essa enfermeira disse-me para tentar dormir e sugeriu que o papá esperasse em casa, descansando lá também. Assim fizemos, mas não conseguia descansar. Estava incomodada em estar a ocupar um quarto que poderia ser para outra grávida “realmente” em trabalho de parto. Fiquei envergonhada por estar há tantas horas sem conseguir nenhum avanço! Fiquei realmente desapontada por estar longe do que tínhamos imaginado que seria a tua chegada!

Passadas umas horas, perto das 20h, a enfermeira veio ter comigo e disse: “O Dr. vai dar-te alta. Vais para casa e voltas quando estiveres como esta rapariga que vai entrar daqui a pouco para o CTG. Ela está com 5 cm de dilatação e vai parir na água!”. Confesso que “morri” de inveja! Porque é que não tinha esperado mais? Porque é que vim tão cedo? Eu também devia estar naquela posição!

Sentei-me novamente na cadeira do CTG para fazer mais um, antes de ir para casa. Vejo entrar, no fundo, uma das raparigas que fez conosco o curso de preparação aquática em Palmela. Sorrio mas só tenho vontade de chorar. Observo-a com afinco. Cada passo que ela dá, cada expressão, cada inspiração. Penso: “Só volto quando estiver muito pior do que ela!”

O papá foi buscar-me e voltamos para casa. No caminho chorei. Quando chegamos a casa, chorei novamente. O papá foi jantar com os teus avós, os seus pais, enquanto eu fiquei sozinha em casa a refletir e descomprimir o stress e frustração de um dia muito cansativo física e emocionalmente!

Chorei, chorei, gritei para dentro de mim e tu ouviste! Subitamente as contrações regressaram. Vinham de 8…6…5…3 em 3 minutos… cada vez mais fortes! Tomei um novo banho, mas a água quente pouco acalmou. Quando saí do banho já não conseguia suportar as dores. Aliviavam um pouco quando soltava um “aaaahhhh”, ao mesmo tempo que respirava!

O papá chegou a casa e encontrou-me no meio de um forte “aaaaahhhhhh”. Olhou para mim assustado e ligou para a enfermeira que nos tinha seguido durante a gravidez. Ela disse que estava a caminho de Setúbal, que aguardássemos mais meia hora, mas neste momento as dores eram mais do que muitas e não estava a conseguir suportá-las. Combinamos, então, encontrar-nos no hospital.

Entrei no carro mas mal me conseguia sentar. Agarrava a porta com força e continuava no meu mantra dos “aaaahhhh”, enquanto fechava os olhos. Quase não conseguia andar e muito menos falar. Qualquer trepidação causava a sensação de milhares de facas atravessando os meus rins.

Chegamos ao hospital às 23h e poucos minutos. Subimos entre vários “aaaahhhhh” e respiração ofegante. Quando cheguei à receção iniciei com muita dificuldade o processo de inscrição, mas o administrativo disse que eu ainda estava “internada” pois tecnicamente não me teriam dado alta. Neste ponto já nem conseguia abrir os olhos, pelo que uma enfermeira me veio buscar à entrada e levou para uma sala de observação. Despi-me, mais uma vez, da cintura para baixo e fui “tocada”. Estava com 5 cm francos e o colo do útero apagado.

Mais uma vez, tive de fazer um CTG, mas desta vez as contrações fortíssimas impediam-me de me sentar. Já só dizia “aaahhhhh” sem conseguir abrir os olhos. Tive uma estranha e horrível sensação de vómito e pedi um saco pois parecia que ia vomitar. A enfermeira começou a ficar nervosa e demorou bastante tempo a colocar o foco do CTG. Não conseguia encontrar o teu coração… apenas um fraco foco de 80 e pouco. O papá chegou a ver 130 no monitor, mas rapidamente desapareceu pois a enfermeira não fixava o foco em sítio nenhum.

Neste impasse chegou o médico que nem esperou encontrar o foco do bebé, nem fez ecografia para conferir, nem me observou. Apenas disse para me levar imediatamente para o bloco de cesariana.

Só me apetecia gritar “NÃÃÃÃOOO!” Não queria cesariana!!! Não tinha sido isso que sonhamos para este momento! Só orava em voz alta “Deus meu, salva o meu bebé!”

A enfermeira tremia enquanto procurava uma bata e uns chinelos para mim. Mandou-me despir ali mesmo e vestir a bata. A custo tirei o vestido que trazia e vesti a bata. Fui pelos meus próprios pés até à sala de cesariana. Se o bebé estivesse mesmo em perigo não teria sido melhor levar-me numa cadeira de rodas?

A meio do caminho um senhor com sotaque espanhol abordou-me. Era o anestesista. Perguntou-me quando tinha comido pela última vez. Respondi que teria sido pelas 21h e pouco pelo que ele franziu o sobrolho. Perguntou-me muito rapidamente se era alérgica à penicilina ou algum outro fármaco, e eu respondi negativamente com a cabeça, pois nem conseguia abrir os olhos, nem conseguia falar.

O papá seguia-me, incrédulo e nervoso. Não sabia o que fazer nem para onde ir. Eu estava completamente em choque com a notícia da cesariana. Não parava de gemer “aaaaahhhh” e só queria que me acordassem daquele pesadelo! O pior estaria para vir…

Mandaram-me subir para uma maca alta. Com muito custo me sentei na mesma, mas rapidamente se aperceberam que não tinham posto um lençol e mandaram-me levantar novamente. Desci da maca com muito custo, esperei que pusessem o lençol e sentei-me outra vez lá em cima. Empurraram-me para dentro da sala, uma sala que me pareceu vazia e fria, onde a luz branca me encadeava a vista. A última imagem que me ficou foi do médico vestido com uma bata verde e uma máscara, calçando as luvas brancas com as mãos para cima. Tal como nos filmes… no meu caso um filme de terror!

O médico anestesista pediu-me para me inclinar para a frente e não me mexer para que me administrasse a epidural. A enfermeira estava à minha frente, segurando-me. Assim que a agulha entrou na minha espinha, uma descarga elétrica fez com que a minha perna direita desse um forte e involuntário pontapé. A enfermeira repreendeu-me de seguida: “Esteja quieta, o médico disse para não se mexer!” Eu nem quis acreditar! “Mas eu não me mexi… foi sem querer!”, respondi a custo no meio de gemidos.

O anestesista mandou-me deitar sozinha e levantar as pernas. Fiz o que me disse e comecei a ver todos aproximar-se de mim com os seus instrumentos.

“Eu ainda sinto as pernas!”, disse em pânico quando senti uma compressa fria com betadine ser passada na minha barriga!

“Esperem, ela ainda está a sentir… la anestesia no fez efeito ainda”, disse o anestesista com o seu sotaque espanhol, mas foi ignorado pelo médico que prontamente enfiou o bisturi no meu baixo-ventre e me cortou três vezes. Gritei com todas as forças para afastar a imensa dor… dor de um corte a “sangue frio”… dor de um “corte” num sonho… dor de um “corte” em todas as expectativas de um momento mágico que se tornou num autêntico pesadelo!

O anestesista reforçou-me a anestesia colocando-me uma máscara na cara, mas as dores que senti quando as mãos entraram dentro de mim e te arrancaram superaram qualquer anestesia! Parecia que todo o meu interior estava a ser sugado… e quando pressionaram a barriga para que saísse a placenta senti que iria desmaiar de tanta dor! Não fosse a força do teu choro, teria desmaiado com tanto sofrimento físico. O teu choro me deu forças para continuar consciente e presente. O teu choro me trouxe algum alento pois indicava que estavas bem! Para além disso, as palavras do médico: “Pronto, o bebé está bem… não há sinais de descolamento da placenta… vou coser…”

Não há palavras para descrever a dor sentida neste dia! Dor de não te ter sentido junto ao meu peito assim que nasceste, apenas te ter visto e beijado quando aproximaram o teu rostinho tão lindo com os olhos bem abertos. Dor de não ter tido o papá ao meu lado neste momento de grande sofrimento. Dor de ter sido tratada como um objeto e de não ter sido ouvida, nem quando gritava “ainda estou a sentir”! Dor de não terem deixado o cordão pulsar até ao fim, nem do papá não ter podido cortá-lo. Dor de não saber o que estava a acontecer e pensar que poderias estar em sofrimento. Dor de ter ficado com uma memória tão negra de um momento mágico que é deixar sair de nós vida! Dor de ficar com uma cicatriz externa que me relembra estes momentos sempre que olho para ela.

Quando te vi, tão pequenino, com os olhos e braços abertos, com uma carinha tão linda mas expressão meio “perdida” pois tinhas sido arrancado da tua mamã de forma tão brutal, chorei de emoção e só conseguia dizer: “meu filhinho… és tão lindo! A mamã ama-te muito!” Pedi que te levassem ao papá, para que fizesses contacto “pele a pele”. Isso eles respeitaram, e ainda bem!

Finalmente, enquanto me cosiam e agrafavam, ouvi o anestesista perguntar, indignado: “Então e o soro?”. Ouvi uma voz envergonhada dizer “Oh! Esqueci-me!”. O anestesista mostrou a sua indignação dizendo “Isto não pode acontecer!”, e rapidamente alguém me picou a veia da mão direita e colocou o soro a correr.

Fui levada para a sala do recobro onde esperei por vocês, os meus homens! Senti-me sozinha. Tão sozinha e perdida no meio de uma sala estranha… acabada de vivenciar o momento mais estranho da minha vida! Avistei-vos e sorri. Colocaram-te deitado a meu lado e imediatamente procuraste pela minha maminha. Não esperava ter leite, mas tu imediatamente puxaste com tal força que saiu de mim um pouco dessa “água” que sacia.

O parto… um momento traumatizante para a maioria das mulheres. E porquê? Não deveria ser assim! “Com dor darás à luz filhos” (Génesis 3:16), disse Deus a Eva quando esta ofereceu o fruto proibido a Adão, mas esta dor é uma dor que traz a recompensa de uma criança nos braços. É a dor natural das contrações que ajudam o bebé a encontrar o caminho para a vida! Não é uma dor provocada por homens e mulheres com os seus instrumentos, mexendo e remexendo no interior de uma mulher em situação vulnerável!

O parto pode e deve ser uma das melhores memórias que existem na vida de um casal…de uma família! O parto pode e deve ser uma experiência única, linda e especial! Por isso disse à saída da sala de cirurgia e volto a dizer, hoje, que para a próxima vez não será assim! O próximo parto será um parto memorável e mágico!

Mulheres que passaram por situações semelhantes à minha, não se conformem! Temos direitos: os direitos humanos no nascimento! Temos leis que nos suportam e dão força para que esse dia seja especial!

De facto, apenas uma memória é capaz de apagar outra. Por outras palavras, as memórias permanecem na nossa mente até que uma nova experiência substitua a memória antiga de um acontecimento semelhante. Assim, eu quero criar “novas” memórias e mal posso esperar pela próxima oportunidade de trazer mais um ser à vida!

Com amor somos gerados. Com esse mesmo amor somos trazidos a este mundo. Nada é mais certo que isso! É a lei natural da vida! Tudo o mais é “artificial”!