sábado, 10 de maio de 2014

"Aproveita..."

Uma das frases que mais tenho ouvido ultimamente tem sido “Aproveita agora porque depois vais sentir saudades!”. Confesso que esta frase me traz desconforto… Aproveitar…. Aproveitar para dormir, passear, fazer coisas que gosto, ir à praia, descansar... tudo coisas que tenho de “aproveitar” para fazer agora, ainda grávida. Esta é a ‘sabedoria’ popular. Estes são os conselhos de mães e pais experientes. Esta é uma ideia que me incomoda severamente!

Tenho pensado bastante nestes detalhes nestes últimos dias. Aproveitar? O que significa isso? Segundo o dicionário online Priberam (http://www.priberam.pt) o verbo transitivo “aproveitar” significa “tirar proveito de; tornar proveitoso, útil”. Será que este conselho quer dizer que tomar uma decisão consciente de aumentar a nossa família, com tudo o que isso implica (noites sem dormir, preocupações constantes, muitas lágrimas, muitas alegrias, despesas extra, sacrifícios próprios) necessita “tirar proveito” em meu favor de uma fase tão altruísta que é estar grávida e, mais tarde, ser mãe? Será que o facto de ser veículo de tamanho milagre que é gerar vida não é proveitoso ou útil por si só?

Não quero, com esta reflexão, ferir a quem de boa vontade quer alertar para as tremendas responsabilidades que a vida de um casal sofre com a chegada de um filho! É necessário reforçar que compreendo estes conselhos e respeito profundamente quem os dá, pois sei que a intenção é prevenir acerca das mudanças profundas após o nascimento de um bebé. Não se tratam apenas de mudanças nas rotinas, mas mudanças nas prioridades, nas escolhas, nas decisões, nas preocupações, nos esforços, nas hormonas e no próprio relacionamento entre pai e mãe.

Esta reflexão apenas pretende realçar uma cultura, uma mentalidade global que assenta no proveito próprio, no prazer, na vivência do momento, na satisfação dos impulsos, esquecendo-se das características nobres do ser humano: abnegação, generosidade, sacrifício, obstinação, brandura, domínio próprio, fé, audácia, resiliência. Quem dentre a minha geração conhece o real significado destas palavras? Quem dentre a minha geração coloca em prática estas pérolas da personalidade?

Já foi referido, num post anterior deste Blog, que a decisão de alargar a família implica inúmeras escolhas que não são certamente fáceis! Há que modificar condutas, pensamentos, prioridades, estilos de vida. Será que o casal pensa em tudo isto quando ingressa no papel de pai e mãe? Seria desejável que sim.

Num mundo tão naturalmente egoísta e individualista, o que importa é o momento e o prazer que posso retirar dele. Esta é uma atitude naturalmente aceite pela sociedade. Ou seja, quando escolhemos ter um filho, escolhemos tê-lo para satisfazer as nossas necessidades narcísicas de exibir um bebé lindo, uma criança divertida e esperta, um jovem desportista ou um adulto bem sucedido? Ou será que escolhemos ter um filho porque necessitamos materializar um sentimento abstrato como é o amor? Analisando profundamente as duas opções, concluo que ambas refletem o que referi anteriormente: são uma resposta a necessidades pessoais!

Torna-se, assim, extremamente difícil colocar em prática este desejo idílico de altruísmo incondicional, o que me incomoda pois pensava que o possuía. É verdade que dar-se a alguém através de uma relação, dar-se literalmente de “corpo e alma”, tem consequências e uma delas é gerar Vida! Mas por mais romântica ou maravilhosa que possa ser este facto, não existe sem custos. Os custos são para os pais, que vêem as suas vidas completamente modificadas e centradas em torno do novo ser, fruto do seu Amor. No entanto, os custos são mais elevados para esse ser tão desejado e amado! Vejamos, a criança nasce indefesa. Possui capacidades precoces incríveis que lhe permitem sobreviver, tal como os outros seres deste planeta (as quais serão abordadas noutro post), mas nasce com custos elevados para a sua vida. Estes custos são: doenças, dores, fome, emoções por vezes incompreendidas (até pelos pais inexperientes), sentimentos confusos, responsabilidades, desafios, necessidade de tomar decisões constantes, escolhas ambíguas, ciladas, desilusões (com amizades, amores, familiares, expectativas, etc.), e esta lista vai aumentando consoante a individualidade de cada um, pois há quem nasça com deficiências e necessidades especiais…

Apesar disto tudo, devo aproveitar esta fase em que ainda me encontro, não valorizando demasiado estas dificuldades naturais à vida humana? Certamente que sim. Certamente aproveito. Certamente amo estar grávida, sentir o meu bebé mover-se dentro de mim e responder quando lhe falo ou canto. Certamente amo sentir que estamos constantemente ligados um ao outro, física e emocionalmente. Certamente amo este estado de “graça”. De graça geramos Vida, pois de graça nos foi concedida a capacidade de Amar!

Aproveito o dom da Vida a cada momento e mais intensamente nestas últimas semanas, dias ou horas de gravidez. Aproveito a incerteza do momento em que o conhecerei pessoalmente, procurando estar atenta aos sinais que o meu corpo emite. Aproveito para pensar mais seriamente na responsabilidade de ter um bebé 24 horas por dia, 365 dias por ano a meu cargo. Este bebé tornar-se-á uma criança, adolescente, jovem, adulto e idoso sob o meu amor incondicional, amor este que jamais morrerá ainda que o meu corpo se apague e o meu fôlego regresse a quem me soprou nas narinas no dia em que nasci, 21 de outubro de 1983. Este amor é eterno.
 

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Dúvidas e receios de uma grávida


À medida que o “momento final” se aproxima, sinto a necessidade de partilhar algo que me tem incomodado.

Talvez algumas mães se tenham esquecido das emoções sentidas e vividas quando esperavam que o seu bebé estivesse pronto para conhecer este mundo, mas para mim que estou nessa fase é uma total novidade.

Quando idealizava ser mãe, nunca imaginei que pudesse ser assim: uma constante montanha russa de receios, sentimentos mistos, desejos, sonhos, esperanças, alegrias, ansiedades, dúvidas, certezas… Idealizava um romance em que a barriga crescia simplesmente, nós íamos sentindo o bebé, um amor e felicidade incondicionais, um paraíso na terra. Não me lembrei que um filho é uma tremenda responsabilidade! Que à medida que a barriga cresce e o bebé vai “descendo” aumentam os desconfortos, as dores, o mal estar, a falta de sono descansado. Não pensei que à medida que o “Dia D” se aproxima aumentam as incertezas, os receios de não saber identificar os sinais da sua vinda, o medo de não estar à altura da função de mulher que pare o seu filho, do cargo de mãe que entende as necessidades do seu filho e responde adequadamente ao que ele precisa! Não me lembrei que vão aumentando as dúvidas e preocupações: será que vou conseguir educar o nosso pequenino de modo a que possa fazer as suas escolhas de modo consciente quando crescer, de modo a não se envolver em caminhos perigosos de drogas, violência, intolerância? Será que irá gostar e orgulhar-se da sua mãe? Será que conseguirei respeitá-lo na sua individualidade e não querer que corresponda às minhas expectativas para ele? Será que vai ser um bebé, criança, adolescente, jovem e adulto feliz?

Todos estes aspetos ficaram no baú quando pensava em ser mãe. Apenas pensava que a barriga cresceria, o bebé nasceria (sem ter consciência de todo o processo), que o seguraria nos meus braços, daria de mamar, contaria histórias e ensinaria a brincar. Esqueci-me que o mundo está cheio de doenças, de maldade, de gente aproveitadora, de ganância… esqueci-me que o meu bebé que agora está tão protegido do frio, do calor, das alergias, dos micróbios, das doenças, iria e irá ser atacado por tudo isto assim que der o seu primeiro suspiro até ao seu último! Nunca pensei que ele pudesse partir antes de nós (pois muitos filhos partem inesperadamente antes dos pais e pelos motivos mais surreais)! Nunca pensei na dor que iria sentir cada vez que ele ferisse o seu joelho, cada vez que gemesse com cólicas ou cada vez que lhe custasse a respirar por uma bronquiolite. Nunca pensei que choraria sempre que um colega o ofendesse e magoasse, que me angustiaria sempre que namorasse com alguém que não o respeitasse ou o contrário. Que poderia desiludir-me com os seus comportamentos na escola, com o seu mau humor ou temperamento forte. Que surgiriam discussões, argumentos, saídas de casa, férias com os amigos (onde nunca se sabe o que acontece, mas momentos por que todos já passamos e nos assustam de pensar nisso)… Que um dia iria sair de perto de mim, não querer mais estar com a mãe para querer passar o resto da vida perto de alguém que ele escolhesse… e se essa escolha não fosse a “minha”? Como lidaria com uma pessoa que não gostasse?

Parece até um pouco exagerado, mas estas são dúvidas, receios que sinto à medida que o Gonçalo se vai encaixando dentro de mim e “cavando” o caminho de saída para este mundo!

Quanto mais aproxima a hora em que o irei conhecer pessoalmente, maior parece o “adormecimento” ou “despertar” das minhas emoções. Tenho momentos em que me emociono francamente e choro por todos os motivos já expressos. Tenho outros momentos em que pareço estar “adormecida” e não querer sequer pensar em nada. É uma sensação estranha, ambígua, confusa… Por vezes penso não ser boa mãe por causa disso… Serei normal? Pelo que entendo, há um grande entusiasmo em todas as mães para conhecer os seus bebés… eu mesma o sentia há alguns meses atrás. Onde foi parar este entusiasmo? Por que me sinto tão confusa e amedrontada?

“É tudo normal”… mas não vem no “Manual da Vida”! Não é falado, partilhado, comunicado…

Antigamente as mulheres viviam em grandes comunidades. Partilhavam situações, emoções, vivências, experiências. Atualmente vivemos em caixinhas individuais. Encontramo-nos esporadicamente para um café rápido. Trocas de experiências superficialmente partilhadas pois o tempo não permite desenvolvê-las até atingirem o seu clímax emocional… Mas faz falta! Faz falta a honestidade, a partilha completa entre grávidas que passam pela mesma fase pois uma vez que o bebé nasce muitas dessas dúvidas se dissipam das nossas memórias. Viramos guerreiras ferozes que protegem os seus bebés! Viramos leoas que atacam à primeira ameaça à sua cria! Somos super-mulheres que se abstraem das dores das suturas e se deslocam o mais depressa possível até aos seus bebés que choram para suprir as suas necessidades! Somos fontes de alimento, de carinho, de segurança… Somos um poço de amor sem fundo que não se importa de cheirar o odor fedorento resultante de uma boa digestão… que não se importa de limpar um jato de leite que sai disparado após a mamada… que não se importa de não dormir para embalar o seu pequenino… Mas faz falta relembrar que antes de o ter nos braços esta super-mulher se sentiu a pessoa mais frágil no mundo: uma rosa sem espinhos que enfrenta um predador desenfreado.

Por isso deixo este desabafo. Partilho o que me vai na alma, não obstante as suas consequências.

Ser mãe não é, certamente, um caminho fácil! É uma jornada que se inicia num desejo e nunca mais termina. Nem com a morte.