domingo, 9 de fevereiro de 2014

De coração para coração - Parte 1


A audição é o elemento-chave para a comunicação entre os humanos. O ouvido não é apenas responsável pela audição humana, mas também pelo equilíbrio do corpo. Assim, a capacidade de escuta inicia-se no útero de forma gradual, tendo extrema importância para o desenvolvimento humano e grande impacto na vida e relacionamentos futuros[1].

A partir da vigésima semana de gestação, o feto já apresenta reações aos estímulos sonoros, conseguindo detetar, responder e diferenciar sons, intensidades e alturas dos mesmos, criando memórias de sons intra-uterinos[2].

Estudos elaborados pela Psicologia Pré-Natal, a qual estuda o comportamento e desenvolvimento evolutivo e psico-afetivo-emocional antes do nascimento, revelaram que o feto já possui inteligência, sensibilidade, traços de personalidade, vida afetiva e emocional vinculada à mãe com comunicação empática e fisiológica, sentimentos de prazer e desprazer, dor, tristeza, angústia ou bem-estar, mesmo estando dentro do útero. No entanto, é necessário sempre reforçar que cada bebé é único, sendo que a sua maturidade e nível de resposta aos estímulos variam consoante a sua subjectividade e individualidade[3].

O ambiente intra-uterino é, ao contrário do que se convencionou durante vários anos, um ambiente repleto de ruídos e sons característicos. Dentro da barriga da sua mamã, o bebé poderá ouvir o constante batimento cardíaco, a respiração, os sons do aparelho gástrico-intestinal, a voz e os sons provocados pelos movimentos corporais[4]. Para além deste frenesim interno, o bebé consegue também distinguir sons externos como a voz do pai, avós ou outras pessoas que convivem direta e frequentemente com a mãe, bem como ruídos do ambiente[5].

Apesar de ouvir vários sons internos e externos do corpo da mãe, o que o bebé ouve com maior frequência são os sons da pulsação da principal artéria abdominal da mamã, bem como a sua voz. Assim, tudo o que a mãe pensa ou sente é transmitido ao bebé pela alteração do pulsar do seu coração ou pela alteração na sua voz, o que significa que a gravidez é um importante canal de comunicação entre a mãe e a nova vida que traz dentro de si.

É importante que as mães expliquem aos seus bebés, ainda dentro de si, o que estão a sentir, para que o bebé se reconforte perante alterações nos seus batimentos cardíacos ou vibração das cordas vocais. É importante que, desde o útero, se trabalhem as emoções do bebé através da palavra, da música e respiração. Sempre que sentir o bebé mais agitado, converse com ele, pergunte o que se passa, acaricie a barriga e reconforte-o. Poderá, também, estimular o seu bebé brincando com ele, dando pequenos toques na barriga e esperando o seu retorno interno. É um exercício que pode e deve ser feito em conjunto com o pai, envolvendo-o em todo este processo de crescimento e desenvolvimento não apenas físico como também psico-afetivo-emocional.


Existem três tipos de comunicação entre a mãe e o bebé, dentro do útero[6]:

1. Comunicação de caráter fisiológico – fornecimento de nutrientes e oxigénio ao bebé, receção dos produtos de excreção do bebé por parte da mãe e transmissão hormonal da mãe ao bebé (resultante de stress, angústia, etc.).

2. Comunicação de caráter comportamental – o bebé manifesta a sua ansiedade, medo ou desconforto através de pequenos pontapés ou movimentos mais acentuados. Por sua vez, a grávida pode comunicar com o feto através de massagens na barriga ou pequenos “toques”.

3. Comunicação de caráter emocional – o feto sente se é amado e desejado, ou não, pela mãe não apenas através do seu toque e fornecimento nutricional, mas sobretudo pelo amor estável que sente pelo seu bebé o qual facilitará a vinculação pós-natal.

A literatura confirma que o bebé reage ao batimento cardíaco da mãe e à música suave pois estes lhe proporcionam um ambiente seguro e tranquilo. Neste sentido, é importante que a grávida consiga controlar as suas emoções, sobretudo a partir das 26-28 semanas de gestação, pois o feto já consegue ouvir perfeitamente o batimento cardíaco da sua mãe, a sua voz e os sons do exterior, podendo responder bruscamente com pontapés[7].

A realidade intra-uterina é o primeiro ambiente que o ser humano conhece. É, também, o espaço de onde resultam as primeiras perceções que determinarão o modo como este pequeno ser se relacionará com o resto do mundo exterior, principalmente durante a primeira infância (isto é, até aos 3 anos de idade). Embora não restem memórias vivas deste período, perduram registos inconscientes do mesmo, os quais serão ativados por determinadas situações e desencadearão padrões de comportamento que foram adquiridos dentro da barriga da mãe[8].

De facto, a futura mamã não consegue evitar que o seu bebé seja afetado pelos seus sentimentos de maior angústia, ansiedade ou stress, no entanto, poderá atenuar os seus efeitos negativos conversando com o seu filho e esclarecendo-o sobre o que se está a passar. Pode desabafar com o bebé sobre o modo como se sente em relação à situação e o modo como se sente em relação a ele. Ao falar, a mãe libertará alguns dos sentimentos menos positivos, diminuindo a sua intensidade e reequilibrando-se emocionalmente.

Durante cerca de nove meses, o feto está intimamente ligado à mãe e a tudo o que ela pensa, sente e diz a seu respeito, encontrando-se a mãe e o bebé em comunicação direta e constante. O bebé sente as emoções da mãe e são estas que o moldam nível emocional. Portanto, todo o ambiente que rodeia a mãe é de extrema importância, nomeadamente, a família.

A figura paterna é fundamental para o desenvolvimento emocional do feto, pois o bebé sente a influência que o pai exerce sobre a mãe e, portanto, sobre ele também. Sempre que o pai toca na mãe ou fala com ela, ela experiencia diferentes emoções e sentimentos que passa ao seu bebé. Consequentemente, o pai consegue também influenciar o seu bebé emocionalmente através do toque e sua voz, mesmo que não se sinta envolvido fisiologicamente na experiência da gestação. É extremamente importante que o pai adquira esta noção o mais precocemente possível para que a vinculação familiar se desenvolva com maior harmonia e união.

O bebé aprende constantemente, mesmo dentro do útero materno e são estas aprendizagens que o preparam para, mais tarde, ser moldado pelo ambiente e adaptar-se ao mesmo. Brazelton (1992) afirma mesmo que é no útero que se iniciam as experiências significativas que ajustam o nosso comportamento futuro.

Quando escolhi o título para este post “de coração para coração”, fi-lo para procurar descrever o que se passa dentro da nossa barriga, quando experimentamos o milagre da vida. Mais do que nutrir, o nosso bebé comunica diretamente com o nosso coração, com as nossas emoções, expectativas, receios, sonhos e desejos. Transmitimos-lhe muito mais do que genes e nutrientes, transmitimos-lhes a nossa essência humana, o que nos diferencia dos outros seres vivos: as emoções inteligíveis. Não me refiro apenas à mulher, que tem a respondabilidade de carregar o bebé dentro de si durante 40 (mais ou menos) semanas, mas também e sobretudo ao pai e a todos os elementos de importância emocional para a mãe.

Portanto, é importante que, antes de decidirem engravidar, o casal realize uma forte introspeção e se conheça profundamente. Façam-no em conjunto e individualmente. Excrutinem os vossos sonhos, expectativas, reações, comportamentos, o que vos alegra, o que vos assusta, o que vos torna inseguros e resolvam situações passadas que ainda vos possam atormentar. Perdoem-se e perdoem os que vos magoaram de certa forma. Só assim se conseguirão libertar das correntes que vos amarram as emoções e voar livremente nesta aventura de ser pais.

 


 



[1] Nunes, P. (2009). Experiência auditiva no meio intra-uterino. Artigo publicado online no Portal dos Psicólogos, 2010. Consultado a 08/02/2014, disponível em www.psicologia.com.pt
[2] Nothern & Downs (1989); Verri (1999) citados por Nunes (2009)
[3] Peixoto, D. F. & Amorim, V. C. (2007). Da psicombrologia ao puerpério: sensibilização à relação mãe-bebé.
[4] Sá, E. (2001). Psicologia do feto e do bebé. Lisboa: Fim de Século.
[5] Nunes (2009)
[6] Verne & Kelly (1984) citados por Nunes (2009)
[7] Coimbra, V. (2008). Preparação para o parto. Disponível online em http://esfeira.blogspot.com/2008/09/vinculacao-e-vida-intra-uterina.html
[8] Rico, A. M. (s.d.). Psicologia da gestante. Disponível online em http://guiadobebe.uol.com.br/psicgestante/a_comunicacao_verbal_na_gestacao.htm

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