A audição é o elemento-chave para
a comunicação entre os humanos. O ouvido não é apenas responsável pela audição
humana, mas também pelo equilíbrio do corpo. Assim, a capacidade de escuta
inicia-se no útero de forma gradual, tendo extrema importância para o
desenvolvimento humano e grande impacto na vida e relacionamentos futuros[1].
A partir da vigésima semana de
gestação, o feto já apresenta reações aos estímulos sonoros, conseguindo
detetar, responder e diferenciar sons, intensidades e alturas dos mesmos,
criando memórias de sons intra-uterinos[2].
Estudos elaborados pela
Psicologia Pré-Natal, a qual estuda o comportamento e desenvolvimento evolutivo
e psico-afetivo-emocional antes do nascimento, revelaram que o feto já possui
inteligência, sensibilidade, traços de personalidade, vida afetiva e emocional
vinculada à mãe com comunicação empática e fisiológica, sentimentos de prazer e
desprazer, dor, tristeza, angústia ou bem-estar, mesmo estando dentro do útero.
No entanto, é necessário sempre reforçar que cada bebé é único, sendo que a sua
maturidade e nível de resposta aos estímulos variam consoante a sua
subjectividade e individualidade[3].
O ambiente intra-uterino é, ao
contrário do que se convencionou durante vários anos, um ambiente repleto de
ruídos e sons característicos. Dentro da barriga da sua mamã, o bebé poderá ouvir
o constante batimento cardíaco, a respiração, os sons do aparelho gástrico-intestinal,
a voz e os sons provocados pelos movimentos corporais[4].
Para além deste frenesim interno, o bebé consegue também distinguir sons
externos como a voz do pai, avós ou outras pessoas que convivem direta e
frequentemente com a mãe, bem como ruídos do ambiente[5].
Apesar de ouvir vários sons
internos e externos do corpo da mãe, o que o bebé ouve com maior frequência são
os sons da pulsação da principal artéria abdominal da mamã, bem como a sua voz.
Assim, tudo o que a mãe pensa ou sente é transmitido ao bebé pela alteração do
pulsar do seu coração ou pela alteração na sua voz, o que significa que a
gravidez é um importante canal de comunicação entre a mãe e a nova vida que
traz dentro de si.
É importante que as mães
expliquem aos seus bebés, ainda dentro de si, o que estão a sentir, para que o
bebé se reconforte perante alterações nos seus batimentos cardíacos ou vibração
das cordas vocais. É importante que, desde o útero, se trabalhem as emoções do
bebé através da palavra, da música e respiração. Sempre que sentir o bebé mais
agitado, converse com ele, pergunte o que se passa, acaricie a barriga e
reconforte-o. Poderá, também, estimular o seu bebé brincando com ele, dando
pequenos toques na barriga e esperando o seu retorno interno. É um exercício
que pode e deve ser feito em conjunto com o pai, envolvendo-o em todo este
processo de crescimento e desenvolvimento não apenas físico como também
psico-afetivo-emocional.
1. Comunicação de caráter
fisiológico – fornecimento de nutrientes e oxigénio ao bebé, receção dos
produtos de excreção do bebé por parte da mãe e transmissão hormonal da mãe ao
bebé (resultante de stress, angústia, etc.).
2. Comunicação de caráter
comportamental – o bebé manifesta a sua ansiedade, medo ou desconforto através
de pequenos pontapés ou movimentos mais acentuados. Por sua vez, a grávida pode
comunicar com o feto através de massagens na barriga ou pequenos “toques”.
3. Comunicação de caráter
emocional – o feto sente se é amado e desejado, ou não, pela mãe não apenas através
do seu toque e fornecimento nutricional, mas sobretudo pelo amor estável que sente
pelo seu bebé o qual facilitará a vinculação pós-natal.
A literatura confirma que o bebé
reage ao batimento cardíaco da mãe e à música suave pois estes lhe proporcionam
um ambiente seguro e tranquilo. Neste sentido, é importante que a grávida
consiga controlar as suas emoções, sobretudo a partir das 26-28 semanas de
gestação, pois o feto já consegue ouvir perfeitamente o batimento cardíaco da
sua mãe, a sua voz e os sons do exterior, podendo responder bruscamente com pontapés[7].
A realidade intra-uterina é o
primeiro ambiente que o ser humano conhece. É, também, o espaço de onde resultam
as primeiras perceções que determinarão o modo como este pequeno ser se relacionará
com o resto do mundo exterior, principalmente durante a primeira infância (isto
é, até aos 3 anos de idade). Embora não restem memórias vivas deste período, perduram
registos inconscientes do mesmo, os quais serão ativados por determinadas
situações e desencadearão padrões de comportamento que foram adquiridos dentro
da barriga da mãe[8].
De facto, a futura mamã não consegue
evitar que o seu bebé seja afetado pelos seus sentimentos de maior angústia,
ansiedade ou stress, no entanto, poderá atenuar os seus efeitos negativos
conversando com o seu filho e esclarecendo-o sobre o que se está a passar. Pode
desabafar com o bebé sobre o modo como se sente em relação à situação e o modo
como se sente em relação a ele. Ao falar, a mãe libertará alguns dos sentimentos
menos positivos, diminuindo a sua intensidade e reequilibrando-se
emocionalmente.
Durante cerca de nove meses, o
feto está intimamente ligado à mãe e a tudo o que ela pensa, sente e diz a seu
respeito, encontrando-se a mãe e o bebé em comunicação direta e constante. O
bebé sente as emoções da mãe e são estas que o moldam nível emocional. Portanto,
todo o ambiente que rodeia a mãe é de extrema importância, nomeadamente, a
família.
A figura paterna é fundamental
para o desenvolvimento emocional do feto, pois o bebé sente a influência que o
pai exerce sobre a mãe e, portanto, sobre ele também. Sempre que o pai toca na
mãe ou fala com ela, ela experiencia diferentes emoções e sentimentos que passa
ao seu bebé. Consequentemente, o pai consegue também influenciar o seu bebé
emocionalmente através do toque e sua voz, mesmo que não se sinta envolvido fisiologicamente
na experiência da gestação. É extremamente importante que o pai adquira esta
noção o mais precocemente possível para que a vinculação familiar se desenvolva
com maior harmonia e união.
O bebé aprende constantemente,
mesmo dentro do útero materno e são estas aprendizagens que o preparam para,
mais tarde, ser moldado pelo ambiente e adaptar-se ao mesmo. Brazelton (1992)
afirma mesmo que é no útero que se iniciam as experiências significativas que ajustam
o nosso comportamento futuro.
Quando escolhi o título para este post “de coração para coração”, fi-lo para procurar descrever o que
se passa dentro da nossa barriga, quando experimentamos o milagre da vida. Mais
do que nutrir, o nosso bebé comunica diretamente com o nosso coração, com as
nossas emoções, expectativas, receios, sonhos e desejos. Transmitimos-lhe muito
mais do que genes e nutrientes, transmitimos-lhes a nossa essência humana, o
que nos diferencia dos outros seres vivos: as emoções inteligíveis. Não me
refiro apenas à mulher, que tem a respondabilidade de carregar o bebé dentro de
si durante 40 (mais ou menos) semanas, mas também e sobretudo ao pai e a todos
os elementos de importância emocional para a mãe.
Portanto, é importante que, antes de decidirem engravidar,
o casal realize uma forte introspeção e se conheça profundamente. Façam-no em
conjunto e individualmente. Excrutinem os vossos sonhos, expectativas, reações,
comportamentos, o que vos alegra, o que vos assusta, o que vos torna inseguros
e resolvam situações passadas que ainda vos possam atormentar. Perdoem-se e
perdoem os que vos magoaram de certa forma. Só assim se conseguirão libertar
das correntes que vos amarram as emoções e voar livremente nesta aventura de
ser pais.
[1] Nunes,
P. (2009). Experiência auditiva no meio intra-uterino. Artigo publicado online
no Portal dos Psicólogos, 2010. Consultado a 08/02/2014, disponível em www.psicologia.com.pt
[3] Peixoto,
D. F. & Amorim, V. C. (2007). Da psicombrologia ao puerpério:
sensibilização à relação mãe-bebé.
[7]
Coimbra, V. (2008). Preparação para o
parto. Disponível online em http://esfeira.blogspot.com/2008/09/vinculacao-e-vida-intra-uterina.html
[8]
Rico, A. M. (s.d.). Psicologia da gestante. Disponível online em http://guiadobebe.uol.com.br/psicgestante/a_comunicacao_verbal_na_gestacao.htm

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