O conceito de
família e vida familiar tem-se alterado muito ao longo dos últimos séculos. O
modelo tradicional de família define que o seu núcleo deve ser composto por
homem e mulher sendo que estes devem viver juntos, portanto, ser independentes financeira,
física e emocionalmente dos pais, bem como deixar descendência (isto é, ter
filhos)[1].
Este modelo instituído pelos nossos antepassados baseia-se numa ideia
Teocrática, a qual defende e replica a ordem divina descrita na Bíblia: “Portanto
deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e juntar-se-á à sua mulher, e
serão ambos uma só carne” (Génesis 2:23-24).
Com o passar
dos séculos, este modelo alterou-se dando origem a 196 tipos de família[2],
entre elas, homossexuais ou heterossexuais, monoparentais ou biparentais, de
adoção/acolhimento, uniões de facto ou casamentos, relacionamentos livres ou,
ainda, recasados. Estas alterações devem-se, essencialmente, às mudanças socioeconómicas,
tendo como objetivos uma maior e melhor adaptação à sociedade, garantir a sua continuidade
e crescimento psicossocial dos seus membros, bem como manter a funcionalidade
de família enquanto instituição[3].
É certo que
nem todos concordarão com todos os 196 tipos de família, defendendo e optando
pelo modelo tradicional. No entanto, é fundamental respeitar o direito da livre
escolha de cada indivíduo e não julgar as suas opções, ainda que estas nos
pareçam “estranhas” ou “desadequadas”.
Não obstante
tudo o que foi mencionado, posso referir que cresci numa família dita
tradicional, com pai e mãe ainda casados (já lá vão 32 anos!) e influência de
educação cristã. Aprendi que as famílias são instituições divinas, que Deus tinha
“alguém” preparado para mim e que eu devia “guardar-me” até ao casamento. Este,
por sua vez, teria lugar na Igreja, com alguém que partilhasse a mesma crença
religiosa que eu, perpetuando esta dinâmica aos filhos e netos. Confesso que
não segui os passos idealizados pelos meus pais para mim.
Após uma conturbada adolescência, reencontrei um rapaz único e especial que me conquistou
com o seu amor: o meu marido. Depois de um ano de
namoro, decidimos
comprar casa e, por que não, casar. Não houve pedido de casamento formal ou
anel de noivado. Não houve convites nem festa, vestido nem bolo, cerimónia nem
preparações loucas. Houve apenas uma conversa entre famílias mais próximas, um T2 a bom preço, condições de financiamento bancário, um (ainda) bom
spread e prestação mensal, um final de curso (da minha parte) e um emprego
estável (da sua parte). No dia da escritura casamos no civil, apenas com o
testemunho dos nossos pais, irmã e tio. As alianças eram de prata e foram
atrapalhadamente colocadas no dedo anelar um do outro, trocando sorrisos
nervosos.
Após um ano de sucesso numa vida em comum, decidimos fazer uma festa,
comemorando a nossa união com os amigos e familiares mais próximos, na praia.
Mais uma vez não houve vestido de noiva ou bouquet, mas um conjunto de pessoas comodamente
vestidas de branco, colares de flores, muita música, animação e um buffet delicioso.
Concluindo, apesar de me inserir no modelo tradicional de família, o percurso não foi, de todo, o mais tradicional! Apesar disso, somos muito felizes nesta vida comum de dois anos (mais um ano de namoro).
Concluindo, apesar de me inserir no modelo tradicional de família, o percurso não foi, de todo, o mais tradicional! Apesar disso, somos muito felizes nesta vida comum de dois anos (mais um ano de namoro).
[2]
Petzold (1996), Citado por Faco, M. L.
G. & Melchiori, L. E. (2009). Conceito de Família: adolescentes de zona
rural e urbana, pp. 121-135. In, Valle, T. G. M. (Coord.)
Aprendizagem e desenvolvimento humano:
avaliações e intervenções. São Paulo: Cultura Académica.
[3] Dias, M. O. (2011). Um olhar sobre a família
na perspetiva sistémica: O processo de comunicação no sistema familiar. Gestão e Desenvolvimento, 19: 139-156.
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