Quando um sonho nasce em
nos, é acarinhado, nutrido e reforçado durante algum tempo até que ou se
concretiza, ou não se concretiza e, então, morre. Mas quando alguém / algo
morre, perto ou em nós, é necessário fazer o luto!
Tendo em conta que o nosso
sonho “morreu”, necessitamos (pelo menos eu) iniciar o nosso processo de luto
ou grieving process. O verbo inglês to grief engloba uma noção mais realista
do que acontece com uma pessoa do que o nosso substantivo luto, o qual é mais vago a abrangente. De facto, to grief algo ou alguém implica chorar,
soluçar, lamentar, prantear. Significa demonstrar fisicamente que a nossa alma
está profundamente abalada com a perda.
“Sabe-se que o
luto compreende fases e reações próprias, que o enlutado precisa experimentar
para ‘resolver o luto’ de forma saudável.”[1]
Assim, o
processo de luto engloba várias fases ou estágios, definidas por vários autores,
entre eles, John Bowlby (em 1990, pai da vinculação) e Elizabeth Kübler-Ross (2005).
Resumindo ambas, encontramos as seguintes fases[2]: 1) o
choque ou entorpecimento; 2) a negação ou isolamento; 3) a desorganização
emocional ou desespero com manifestações de tristeza profunda ou revolta; 4) a reorganização
emocional ou aceitação que inclui a capacidade de negociação consigo mesmo.
Em cada fase a pessoa pode
reagir de formas diferentes e até mesmo estagnar nessa fase, parando o processo
de luto e nunca conseguindo superar a perda.
Nesta fase as nossas emoções
parecem estar adormecidas e não
conseguimos "sentir" nada: nem tristeza, nem ansiedade, nem revolta,
nem saudade. Pensamos que “amanhã” acordaremos e veremos aquela pessoa querida…
ou que estaremos na mesma condição que antes. Tudo à nossa volta parece baço.
As vozes, cores, cheiros e luzes parecem distorcidas e só reforçam esta
esperança tola de que estejamos apenas a sonhar… um sonho muito mau que
terminará em breve!
Esta reação emocional
funciona como meio de defesa face à imensa dor sentida. O enorme vazio que a
perda trouxe é espelhado nas emoções, as quais sofrem também um vazio inicial.
2) Fase de negação ou isolamento - "Isto não pode ter acontecido comigo!"
Nesta fase a dor de se ter
perdido alguém/algo torna-se tão real que a tendência é negar o sucedido.
Existe um enorme sentimento de incredulidade na situação que arrancou de nós um
ser ou um sonho e desejamos arduamente que seja apenas um pesadelo… uma
brincadeira de mau gosto… algo passageiro! Negamos que seja possível ter
acontecido conosco. Queremos tanto acreditar que tudo não passou de um sonho
que continuamos a viver como se tal não tivesse acontecido.
As pessoas que ficam
"presas" nestas fases tornam-se frias emocionalmente e fecham-se na
sua descrença. Não falam do assunto pois, afinal, ele não aconteceu para elas.
As consequências são a longo prazo, pois mais cedo ou mais tarde a realidade
irá bater-lhes à porta e terão de admiti-la. Nessa altura viverão as próximas
fases com maior intensidade e descontrolo emocional.
Uma vez ultrapassada a
primeira fase, surge um turbilhão de perguntas sem respostas lógicas.
"Porquê eu?", "Porquê comigo?", "Como é
possível...?" São algumas questões que se levantam sem respostas possíveis.
A falta de respostas lógicas e válidas traz um profundo sentimento de mágoa,
revolta e angústia pela nossa impotência face à situação.
Todas as pessoas são
diferentes e cada um reage consoante o seu padrão emocional. Se alguns têm
maior tendência em revoltar-se e exteriorizar os seus sentimentos com maior intensidade
e indignação, outros preferem fechar-se sobre a sua mágoa e choram, sozinhos, a
sua perda.
Todas as formas de expressão
são importantes nesta fase. Convém, no entanto, que a dor seja exteriorizada e
não interiorizada para que o processo de luto ocorra de forma regular. É,
também, importante que esta fase não seja demasiado longa, pois poderá dar
origem a perturbações emocionais como alterações no comportamento, nomeadamente
comportamentos violentos, e depressão.
4) Fase
de reorganização emocional ou aceitação da perda que
inclui a capacidade de negociação consigo mesmo - “Agora
consigo falar sobre o que me aconteceu”
Nesta última
fase dá-se a catarse. Uma vez que os
sentimentos e emoções já foram expressos e a dor foi ouvida (nem que seja pela
própria pessoa), torna-se possível “arrumar” pensamentos e refletir sobre o
sucedido.
As
recordações reavivam-se, as expectativas reescrevem-se, as frustrações
tornam-se impulsionadores de mudanças e as esperanças vestem a roupa da
realidade através da resignação.
É fundamental
o diálogo nesta última fase, nomeadamente, o diálogo interno. Fazer as pazes
consigo mesmo e libertar-se da culpa de falhas possíveis ou imaginárias é
essencial para a “cura”. Desabafar com familiares e amigos próximos também é
fundamental, pois o seu apoio incondicional faz a diferença para uma boa
recuperação emocional face a uma perda significativa.
Infelizmente,
na nossa cultura ocidental, o luto é imediatamente associado a morte. Por sua
vez, a morte é assunto ainda bastante “proibido” e pouco verbalizado. Há uma
enorme tendência a preferir eufemismos quando nos referimos à morte. Temos
ainda muito receio de a encarar como sendo parte da vida. Temos receio porque é
um campo desconhecido… um campo onde não vemos a saída… um campo vasto mas
escuro.
De facto, o
luto é muito mais do que um processo ligado à morte física de pessoas. É um
processo que se inicia sempre que há uma perda significativa na nossa vida: um
emprego, uma expectativa, um sonho, um objetivo, um casamento, um namoro, um/a
amig@, uma relação com um familiar, por exemplo.
Tendo em conta o relato do meu parto difícil, considero-me abençoada pois consegui superar o processo de luto de um parto sonhado! Tive o suporte emocional em familiares e no meu marido, fundamentais para me sentir capaz de ultrapassar a violência por que passei.
Consegui ter momentos para chorar, momentos para gritar a minha revolta, momentos para desabafar e momentos para refletir. Graças a este processo completo posso dizer que tenho, hoje, mais força para lutar pelos meus direitos e seguir em frente, esperando reescrever a minha memória do parto quando nascer @ meu/minha segund@ filh@.
Encaremos o
luto como um dos vários processos de vida. Como parte do nosso desenvolvimento
pessoal e espiritual. Lutemos por conquistar a harmonia face às perdas da nossa
vida! Só assim conseguiremos alcançar a paz de espírito e viver felizes com o
que a vida nos dá.
Os obstáculos
devem servir de impulso para o sucesso e não de âncora para o fracasso!
[1]
Moura, C. M. (2006). Uma
avaliação da vivência do luto conforme o modo de morte.
Dissertação de Mestrado. Universidade
Brasília. Página 13.
[2] Basso, L. A. & Wainer, R. (2011). Luto e perdas
repentinas: Contribuições da Terapia Cognitivo-Comportamental. Revista Brasileira
de Terapias Cognitivas, 7 (1): 35-43.



