quarta-feira, 2 de julho de 2014

Um parto difícil...


Depois de tanto desejar a tua vinda começo a sentir-me diferente. Estamos a 13 de maio de 2014. Adormeço cedo no sofá, exausta depois de uma noite anterior mal dormida com contrações esporádicas e muitas idas à casa de banho, enquanto o papá vê a novela da noite. Quando esta termina, ele leva-me gentilmente até à cama onde costumava descansar até de madrugada. Mas algo muda nesta noite.

À meia noite e meia acordo com dores na zona lombar. Levanto-me e vou à casa de banho mas as dores intensificam-se e começo a respirar mais profundamente. Levanto-me e vou andar pela cozinha e sala. O papá apercebeu-se que eu estava com dores e veio ter comigo, perguntando-me se queria ir para o hospital. Disse-lhe que ainda não e que iria estar atenta e ver de quanto em quanto tempo surgiam estas dores. Começam por ser de 10 em 10 minutos. Passam para 8… 6… 5… 3 minutos de intervalo entre si…mas aos 3 minutos tornam-se novamente irregulares. Voltam aos 8… 6… 5… Vou tomar um banho teste de imersão e as dores reduzem a sua intensidade. O tempo passa e as contrações retomam o seu curso: 8…6…5…3 minutos. São 5h da manhã e não dormimos nada. Decidimos ir para o hospital. Levamos a mala do parto, o computador e dois sorrisos na cara. Estamos felizes porque vens a caminho e queremos dizer a toda a gente!! Mas são 5h da manhã e contemo-nos.

Chegamos ao hospital, mas pela hora temos de entrar pela urgência geral. Faço a inscrição e o administrativo chama a auxiliar que me levará à urgência de obstetrícia. O papá fica na sala de espera, ansioso e cansado, esperando por notícias.

No caminho para a urgência de obstetrícia, o sorriso que levo esmorona-se quando a auxiliar desbloqueia o silêncio com a pergunta: “Não podia esperar até de manhã?” O meu coração acelera abruptamente e causa-me uma náusea. “Porquê?”, respondo quase sem voz. “Porque a esta hora elas vão recebê-la muito mal! São cá umas víboras!” O nó que sinto na garganta quase me provoca um vómito e sinto-me dormente. Peço-lhe para voltarmos para trás e digo que virei mais tarde! Começo a duvidar do que sinto e só quero é ir-me embora, mas a auxiliar agarra-me no braço e diz: “Agora não a posso deixar sair”. Sinto-me presa. Quero fugir dali mas não posso. Que ideia a nossa! Devíamos ter esperado mais, penso. Se calhar o que sentia não era nada e estou a ser ridícula na minha ansiedade, continuo a pensar.

Entretanto a auxiliar toca à campainha mas engana-se no botão pelo que lhe respondem um pouco mal do outro lado. Ela olha para mim e sorri como quem diz: “Não te disse?” Toca para o sítio correto e abrem-nos a porta. Quase a desmaiar de nervos, olho para uma enfermeira simpática que me recebe com carinho. Desmonto-me em desculpas pela hora, ao que a enfermeira sorri e responde “Ninguém escolhe a hora em que o seu bebé vai nascer!” Descontraio um pouco enquanto nos dirigimos para a cadeira do CTG. Sento-me e a enfermeira procura o bebé, palpando a barriga e colocando o foco no local correto. Seguro um dispositivo com a mão esquerda cujo botão aperto sempre que te sinto mexer. O CTG começa e a enfermeira procura os meus documentos para dar início ao internamento. Após alguns minutos de CTG, a enfermeira confirma a regularidade das contrações, intensidade das mesmas e movimentos fetais, preenchendo então o formulário para internamento.  

Subitamente, entre dois movimentos teus fortes, o batimento cardíaco captado desce para os 82/83, permanecendo assim durante alguns segundos. Pergunto à enfermeira se “é normal” acontecer, ao que ela responde “Normal, normal não é. Mas pode acontecer. Já chamo o médico para confirmar a situação.” A sua calma tranquilizou-me e no meio de outros movimentos teus o batimento cardíaco regressa à normalidade, isto é, 140/150.

Sempre gostaste de te mexer muito dentro de mim, e mesmo com pouco espaço, continuavas a dar piruetas cá dentro, procurando a melhor posição para te “encaixares”.

O médico apareceu poucos minutos depois e verificou o CTG. De facto havia algo, mas desvalorizou a situação e disse-me “Vá andar e volte daqui a duas horinhas.” Eu saí e fui ter com o papá à sala de espera das urgências gerais. Expliquei o que tinha acontecido e fomos andar, tranquilamente e felizes! O papá ligou logo para o trabalho a avisar que não iria nesse dia (14 de maio de 2014) porque tu ias nascer. Ligamos à família e dissemos que vinhas a caminho, mas  que avisaríamos quando chegasse a tua hora! Pedi ao teu avô médico que não viesse ao hospital porque não estávamos lá e que o chamaria quando voltássemos.

Depois de vir desde o hospital até ao parque urbano de Albarquel e voltar, entramos na sala de espera das urgências obstétricas por volta das 9h45. Fiquei muito nervosa ao ver que o teu avô já lá estava, mais ansioso do que nós! Eu tinha-lhe pedido que não fosse… mas em vão. Já tinha falado com a equipa, que era “cinco estrelas”. Conhecia o médico responsável pois tinham feito internamento juntos e estava lá uma enfermeira conhecida, mais antiga. Descansei por saber que a enfermeira que nos tinha acompanhado durante a gravidez nas aulas de preparação para o parto também lá estava.

A porta de entrada abriu-se e vinha a sair uma médica pouco simpática que assim que me viu e que reparou que era filha de um colega levou-me pelo braço e disse “então vamos lá despachar isto antes de eu ir beber café”. Levou-me para uma sala de observações e fez-me um toque vaginal. Tinha cerca de 2 cm de dilatação e o colo do útero ainda muito rijo.

Saímos da sala e senti-me perdida. Para onde ir? O que fazer agora? Até que encontrei a enfermeira que me tinha acompanhado durante a gravidez. Ela avisou-me que o médico responsável pela equipa era contra os partos na água e que estava nesse momento a “fazer a cabeça ao teu pai” para que desistisse da nossa decisão com base no primeiro CTG. Estavam todos estupefactos pelo facto de me terem deixado sair, pois de acordo com o “tal” CTG nem devia ter saído da sala, quanto mais do hospital.

Fui, então, abordada pelo médico responsável que me disse muito carinhosamente: “Minha querida, sabes que com este CTG não te posso deixar ter o bebé na água. Eu não me vou responsabilizar se correr mal. Não te posso assinar os papéis para o teres na água porque não há nada que comprove que é seguro. Sabes, já não é necessário as mulheres sofrerem para terem os filhos… a ciência evoluiu e já não estamos na época das cavernas (risos)… já podes ter sem dor e acelerar o processo para não teres de ficar aqui o dia todo à espera da dilatação. Pensa nisso!”. Eu agradeci a gentileza mas disse que nos tínhamos preparado para te receber na água e que gostaríamos muito que assim fosse. Ele referiu que tínhamos de monitorizar mais vezes para ver se os novos CTG não apresentavam alterações, e que “logo se vê”.

Não perdi imediatamente a esperança, mas aumentei os níveis de ansiedade. A pressão era, agora, mais do que muita! Tinha de fazer a dilatação e tinha de correr tudo bem com os novos CTG… que pressão! O papá entrou para junto de mim e transmitiu-me alguma segurança, mas estava tão apreensivo quanto eu. A enfermeira mais velha ofereceu o quarto adjacente à sala de CTG para que pudesse utilizar o chuveiro com a bola de pilates e para que estivéssemos mais tranquilos. Apesar de sermos bem tratados, estávamos desconfortáveis com toda a situação e apreensivos. A cada meia hora vinha a enfermeira mais velha para me “observar” e o médico aparecia para me mostrar os papéis do consentimento informado sobre a epidural. Repetia que não estávamos na era pré-histórica e que podia “despachar isto” mais depressa de pusesse algo “a correr na veia”. Indignada com tanta insistência, agradecia cordialmente mas assim que ele saía do quarto partilhava com o papá as dúvidas que iam surgindo! E se tu estivesses realmente em sofrimento? E se fosse mesmo melhor acelerar o processo, visto que o trabalho de parto tinha estagnado nos 2,5 cm de dilatação e as contrações estavam a diminuir substancialmente de intensidade e frequência? E se não pudesse ter-te na água?

Só me apetecia chorar. Estava arrasada emocionalmente! O teu papá consolava-me e dava-me forças para continuar. Dizia-me que estava lá comigo para o que decidisse e que o que interessava é que estivesses bem. A enfermeira que nos acompanhou também me consolava e dava ânimo dizendo que o primeiro CTG não era significativo e que eu ia conseguir receber-te como tínhamos sonhado! O enfermeiro chefe também nos apoiou e disse “Se precisarem ficar aqui uma semana a fazer a dilatação, ficam! Ninguém está com pressa!”

Mas as horas passavam, a pressão aumentava e tu não davas sinais de querer “sair”. Pudera! Com tanto entrave e um ambiente tão estranho, quem gostaria de sair de dentro de um meio confortável e seguro?

As horas passaram e chegou a hora de almoço. Disseram-nos para ir ao refeitório almoçar e apanhar ar. Regressaríamos quando quiséssemos. Nós fomos. Descemos no elevador e fomos até ao refeitório. Estava agoniada das dores e stress. Não me apetecia comer nada, só queria que tu nascesses na água! Só me apetecia chorar e sair dali!

O papá comeu um prato com strogonoff de peru e eu comi uma sandes de ovo e bebi um chá de frutos vermelhos para ajudar à dilatação. Sentamo-nos na esplanada a apanhar um ar quente e pouco agradável, tal como o dia estava a ser! Estávamos ambos exaustos e sem forças emocionais para continuar naquela pressão. As contrações começaram novamente a “apertar” e voltamos para a urgência de obstetrícia.

Assim que lá entramos, mais um toque vaginal em plena contração e mais um diagnóstico avassalador: “2,5 cm de dilatação e colo do útero rijíssimo!” Não admira, pois tinha sido “tocada” em plena contração…

O médico voltou a referir que não assinaria os papéis para te ter na água e que não precisava estar a arrastar “isto” tanto tempo. Como se “isto” fosse algo banal… Até poderia ser para alguém que assiste a centenas de partos por ano, mas para nós “isto” era a tua chegada à nossa família! Era o momento em que te veríamos e tocaríamos pela primeira vez. Era o momento em que te poderíamos dizer, olhos nos olhos, que te amamos mais do que tudo nesta vida! Era o momento em que choraríamos de emoção por te sentir junto ao nosso peito. Era o nosso momento de amor mais intenso que existe no mundo! Mais ainda do que o momento de amor em que foste concebido!

As horas passaram e nada se alterava. O papá chegou a cochilar na cama do quarto em que estávamos, mas foi logo repreendido pelo médico que disse que as suas calças de ganga transportavam bactérias da rua para dentro do hospital. O papá ficou envergonhado e sentou-se na cadeira, onde acabou por adormecer de tanto cansaço!

O turno dos enfermeiros mudou. Entrei em pânico. Ia-se embora a “nossa” enfermeira! Ia-se embora o nosso pilar emocional! E agora? Embora ela tenha referenciado outra enfermeira de sua confiança que tinha entrado no turno seguinte, não fiquei descansada. Essa enfermeira disse-me para tentar dormir e sugeriu que o papá esperasse em casa, descansando lá também. Assim fizemos, mas não conseguia descansar. Estava incomodada em estar a ocupar um quarto que poderia ser para outra grávida “realmente” em trabalho de parto. Fiquei envergonhada por estar há tantas horas sem conseguir nenhum avanço! Fiquei realmente desapontada por estar longe do que tínhamos imaginado que seria a tua chegada!

Passadas umas horas, perto das 20h, a enfermeira veio ter comigo e disse: “O Dr. vai dar-te alta. Vais para casa e voltas quando estiveres como esta rapariga que vai entrar daqui a pouco para o CTG. Ela está com 5 cm de dilatação e vai parir na água!”. Confesso que “morri” de inveja! Porque é que não tinha esperado mais? Porque é que vim tão cedo? Eu também devia estar naquela posição!

Sentei-me novamente na cadeira do CTG para fazer mais um, antes de ir para casa. Vejo entrar, no fundo, uma das raparigas que fez conosco o curso de preparação aquática em Palmela. Sorrio mas só tenho vontade de chorar. Observo-a com afinco. Cada passo que ela dá, cada expressão, cada inspiração. Penso: “Só volto quando estiver muito pior do que ela!”

O papá foi buscar-me e voltamos para casa. No caminho chorei. Quando chegamos a casa, chorei novamente. O papá foi jantar com os teus avós, os seus pais, enquanto eu fiquei sozinha em casa a refletir e descomprimir o stress e frustração de um dia muito cansativo física e emocionalmente!

Chorei, chorei, gritei para dentro de mim e tu ouviste! Subitamente as contrações regressaram. Vinham de 8…6…5…3 em 3 minutos… cada vez mais fortes! Tomei um novo banho, mas a água quente pouco acalmou. Quando saí do banho já não conseguia suportar as dores. Aliviavam um pouco quando soltava um “aaaahhhh”, ao mesmo tempo que respirava!

O papá chegou a casa e encontrou-me no meio de um forte “aaaaahhhhhh”. Olhou para mim assustado e ligou para a enfermeira que nos tinha seguido durante a gravidez. Ela disse que estava a caminho de Setúbal, que aguardássemos mais meia hora, mas neste momento as dores eram mais do que muitas e não estava a conseguir suportá-las. Combinamos, então, encontrar-nos no hospital.

Entrei no carro mas mal me conseguia sentar. Agarrava a porta com força e continuava no meu mantra dos “aaaahhhh”, enquanto fechava os olhos. Quase não conseguia andar e muito menos falar. Qualquer trepidação causava a sensação de milhares de facas atravessando os meus rins.

Chegamos ao hospital às 23h e poucos minutos. Subimos entre vários “aaaahhhhh” e respiração ofegante. Quando cheguei à receção iniciei com muita dificuldade o processo de inscrição, mas o administrativo disse que eu ainda estava “internada” pois tecnicamente não me teriam dado alta. Neste ponto já nem conseguia abrir os olhos, pelo que uma enfermeira me veio buscar à entrada e levou para uma sala de observação. Despi-me, mais uma vez, da cintura para baixo e fui “tocada”. Estava com 5 cm francos e o colo do útero apagado.

Mais uma vez, tive de fazer um CTG, mas desta vez as contrações fortíssimas impediam-me de me sentar. Já só dizia “aaahhhhh” sem conseguir abrir os olhos. Tive uma estranha e horrível sensação de vómito e pedi um saco pois parecia que ia vomitar. A enfermeira começou a ficar nervosa e demorou bastante tempo a colocar o foco do CTG. Não conseguia encontrar o teu coração… apenas um fraco foco de 80 e pouco. O papá chegou a ver 130 no monitor, mas rapidamente desapareceu pois a enfermeira não fixava o foco em sítio nenhum.

Neste impasse chegou o médico que nem esperou encontrar o foco do bebé, nem fez ecografia para conferir, nem me observou. Apenas disse para me levar imediatamente para o bloco de cesariana.

Só me apetecia gritar “NÃÃÃÃOOO!” Não queria cesariana!!! Não tinha sido isso que sonhamos para este momento! Só orava em voz alta “Deus meu, salva o meu bebé!”

A enfermeira tremia enquanto procurava uma bata e uns chinelos para mim. Mandou-me despir ali mesmo e vestir a bata. A custo tirei o vestido que trazia e vesti a bata. Fui pelos meus próprios pés até à sala de cesariana. Se o bebé estivesse mesmo em perigo não teria sido melhor levar-me numa cadeira de rodas?

A meio do caminho um senhor com sotaque espanhol abordou-me. Era o anestesista. Perguntou-me quando tinha comido pela última vez. Respondi que teria sido pelas 21h e pouco pelo que ele franziu o sobrolho. Perguntou-me muito rapidamente se era alérgica à penicilina ou algum outro fármaco, e eu respondi negativamente com a cabeça, pois nem conseguia abrir os olhos, nem conseguia falar.

O papá seguia-me, incrédulo e nervoso. Não sabia o que fazer nem para onde ir. Eu estava completamente em choque com a notícia da cesariana. Não parava de gemer “aaaaahhhh” e só queria que me acordassem daquele pesadelo! O pior estaria para vir…

Mandaram-me subir para uma maca alta. Com muito custo me sentei na mesma, mas rapidamente se aperceberam que não tinham posto um lençol e mandaram-me levantar novamente. Desci da maca com muito custo, esperei que pusessem o lençol e sentei-me outra vez lá em cima. Empurraram-me para dentro da sala, uma sala que me pareceu vazia e fria, onde a luz branca me encadeava a vista. A última imagem que me ficou foi do médico vestido com uma bata verde e uma máscara, calçando as luvas brancas com as mãos para cima. Tal como nos filmes… no meu caso um filme de terror!

O médico anestesista pediu-me para me inclinar para a frente e não me mexer para que me administrasse a epidural. A enfermeira estava à minha frente, segurando-me. Assim que a agulha entrou na minha espinha, uma descarga elétrica fez com que a minha perna direita desse um forte e involuntário pontapé. A enfermeira repreendeu-me de seguida: “Esteja quieta, o médico disse para não se mexer!” Eu nem quis acreditar! “Mas eu não me mexi… foi sem querer!”, respondi a custo no meio de gemidos.

O anestesista mandou-me deitar sozinha e levantar as pernas. Fiz o que me disse e comecei a ver todos aproximar-se de mim com os seus instrumentos.

“Eu ainda sinto as pernas!”, disse em pânico quando senti uma compressa fria com betadine ser passada na minha barriga!

“Esperem, ela ainda está a sentir… la anestesia no fez efeito ainda”, disse o anestesista com o seu sotaque espanhol, mas foi ignorado pelo médico que prontamente enfiou o bisturi no meu baixo-ventre e me cortou três vezes. Gritei com todas as forças para afastar a imensa dor… dor de um corte a “sangue frio”… dor de um “corte” num sonho… dor de um “corte” em todas as expectativas de um momento mágico que se tornou num autêntico pesadelo!

O anestesista reforçou-me a anestesia colocando-me uma máscara na cara, mas as dores que senti quando as mãos entraram dentro de mim e te arrancaram superaram qualquer anestesia! Parecia que todo o meu interior estava a ser sugado… e quando pressionaram a barriga para que saísse a placenta senti que iria desmaiar de tanta dor! Não fosse a força do teu choro, teria desmaiado com tanto sofrimento físico. O teu choro me deu forças para continuar consciente e presente. O teu choro me trouxe algum alento pois indicava que estavas bem! Para além disso, as palavras do médico: “Pronto, o bebé está bem… não há sinais de descolamento da placenta… vou coser…”

Não há palavras para descrever a dor sentida neste dia! Dor de não te ter sentido junto ao meu peito assim que nasceste, apenas te ter visto e beijado quando aproximaram o teu rostinho tão lindo com os olhos bem abertos. Dor de não ter tido o papá ao meu lado neste momento de grande sofrimento. Dor de ter sido tratada como um objeto e de não ter sido ouvida, nem quando gritava “ainda estou a sentir”! Dor de não terem deixado o cordão pulsar até ao fim, nem do papá não ter podido cortá-lo. Dor de não saber o que estava a acontecer e pensar que poderias estar em sofrimento. Dor de ter ficado com uma memória tão negra de um momento mágico que é deixar sair de nós vida! Dor de ficar com uma cicatriz externa que me relembra estes momentos sempre que olho para ela.

Quando te vi, tão pequenino, com os olhos e braços abertos, com uma carinha tão linda mas expressão meio “perdida” pois tinhas sido arrancado da tua mamã de forma tão brutal, chorei de emoção e só conseguia dizer: “meu filhinho… és tão lindo! A mamã ama-te muito!” Pedi que te levassem ao papá, para que fizesses contacto “pele a pele”. Isso eles respeitaram, e ainda bem!

Finalmente, enquanto me cosiam e agrafavam, ouvi o anestesista perguntar, indignado: “Então e o soro?”. Ouvi uma voz envergonhada dizer “Oh! Esqueci-me!”. O anestesista mostrou a sua indignação dizendo “Isto não pode acontecer!”, e rapidamente alguém me picou a veia da mão direita e colocou o soro a correr.

Fui levada para a sala do recobro onde esperei por vocês, os meus homens! Senti-me sozinha. Tão sozinha e perdida no meio de uma sala estranha… acabada de vivenciar o momento mais estranho da minha vida! Avistei-vos e sorri. Colocaram-te deitado a meu lado e imediatamente procuraste pela minha maminha. Não esperava ter leite, mas tu imediatamente puxaste com tal força que saiu de mim um pouco dessa “água” que sacia.

O parto… um momento traumatizante para a maioria das mulheres. E porquê? Não deveria ser assim! “Com dor darás à luz filhos” (Génesis 3:16), disse Deus a Eva quando esta ofereceu o fruto proibido a Adão, mas esta dor é uma dor que traz a recompensa de uma criança nos braços. É a dor natural das contrações que ajudam o bebé a encontrar o caminho para a vida! Não é uma dor provocada por homens e mulheres com os seus instrumentos, mexendo e remexendo no interior de uma mulher em situação vulnerável!

O parto pode e deve ser uma das melhores memórias que existem na vida de um casal…de uma família! O parto pode e deve ser uma experiência única, linda e especial! Por isso disse à saída da sala de cirurgia e volto a dizer, hoje, que para a próxima vez não será assim! O próximo parto será um parto memorável e mágico!

Mulheres que passaram por situações semelhantes à minha, não se conformem! Temos direitos: os direitos humanos no nascimento! Temos leis que nos suportam e dão força para que esse dia seja especial!

De facto, apenas uma memória é capaz de apagar outra. Por outras palavras, as memórias permanecem na nossa mente até que uma nova experiência substitua a memória antiga de um acontecimento semelhante. Assim, eu quero criar “novas” memórias e mal posso esperar pela próxima oportunidade de trazer mais um ser à vida!

Com amor somos gerados. Com esse mesmo amor somos trazidos a este mundo. Nada é mais certo que isso! É a lei natural da vida! Tudo o mais é “artificial”!

 

2 comentários:

  1. Estou em choque com o que li, mas passei infelizmente por igual episodio, com a agravante de a minha filha ser prematura, sim prematura de 31 semanas... Ainda somos tratadas como "GADO".
    Desejo te imensas felicidades Lara e restante Família.

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  2. Nossa, que horror, me entristeci muito ao ler seu relato.. Pode dizer qual médico lhe fez esta brutalidade? Tem um médico desde hospital que já fiz queixa dele e queria saber se é o mesmo.

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Obrigada pelo seu comentário! :)