Depois de tanto desejar a tua
vinda começo a sentir-me diferente. Estamos a 13 de maio de 2014. Adormeço cedo
no sofá, exausta depois de uma noite anterior mal dormida com contrações
esporádicas e muitas idas à casa de banho, enquanto o papá vê a novela da
noite. Quando esta termina, ele leva-me gentilmente até à cama onde costumava
descansar até de madrugada. Mas algo muda nesta noite.
À meia noite e meia acordo com
dores na zona lombar. Levanto-me e vou à casa de banho mas as dores
intensificam-se e começo a respirar mais profundamente. Levanto-me e vou andar
pela cozinha e sala. O papá apercebeu-se que eu estava com dores e veio ter
comigo, perguntando-me se queria ir para o hospital. Disse-lhe que ainda não e
que iria estar atenta e ver de quanto em quanto tempo surgiam estas dores.
Começam por ser de 10 em 10 minutos. Passam para 8… 6… 5… 3 minutos de
intervalo entre si…mas aos 3 minutos tornam-se novamente irregulares. Voltam
aos 8… 6… 5… Vou tomar um banho teste de imersão e as dores reduzem a sua
intensidade. O tempo passa e as contrações retomam o seu curso: 8…6…5…3
minutos. São 5h da manhã e não dormimos nada. Decidimos ir para o hospital.
Levamos a mala do parto, o computador e dois sorrisos na cara. Estamos felizes
porque vens a caminho e queremos dizer a toda a gente!! Mas são 5h da manhã e
contemo-nos.
Chegamos ao hospital, mas pela
hora temos de entrar pela urgência geral. Faço a inscrição e o administrativo
chama a auxiliar que me levará à urgência de obstetrícia. O papá fica na sala
de espera, ansioso e cansado, esperando por notícias.
No caminho para a urgência de
obstetrícia, o sorriso que levo esmorona-se quando a auxiliar desbloqueia o
silêncio com a pergunta: “Não podia esperar até de manhã?” O meu coração acelera
abruptamente e causa-me uma náusea. “Porquê?”, respondo quase sem voz. “Porque
a esta hora elas vão recebê-la muito mal! São cá umas víboras!” O nó que sinto
na garganta quase me provoca um vómito e sinto-me dormente. Peço-lhe para
voltarmos para trás e digo que virei mais tarde! Começo a duvidar do que sinto
e só quero é ir-me embora, mas a auxiliar agarra-me no braço e diz: “Agora não a
posso deixar sair”. Sinto-me presa. Quero fugir dali mas não posso. Que ideia a
nossa! Devíamos ter esperado mais, penso. Se calhar o que sentia não era nada e
estou a ser ridícula na minha ansiedade, continuo a pensar.
Entretanto a auxiliar toca à
campainha mas engana-se no botão pelo que lhe respondem um pouco mal do outro
lado. Ela olha para mim e sorri como quem diz: “Não te disse?” Toca para o
sítio correto e abrem-nos a porta. Quase a desmaiar de nervos, olho para uma
enfermeira simpática que me recebe com carinho. Desmonto-me em desculpas pela
hora, ao que a enfermeira sorri e responde “Ninguém escolhe a hora em que o seu
bebé vai nascer!” Descontraio um pouco enquanto nos dirigimos para a cadeira do
CTG. Sento-me e a enfermeira procura o bebé, palpando a barriga e colocando o
foco no local correto. Seguro um dispositivo com a mão esquerda cujo botão
aperto sempre que te sinto mexer. O CTG começa e a enfermeira procura os meus
documentos para dar início ao internamento. Após alguns minutos de CTG, a
enfermeira confirma a regularidade das contrações, intensidade das mesmas e
movimentos fetais, preenchendo então o formulário para internamento.
Subitamente, entre dois
movimentos teus fortes, o batimento cardíaco captado desce para os 82/83,
permanecendo assim durante alguns segundos. Pergunto à enfermeira se “é normal”
acontecer, ao que ela responde “Normal, normal não é. Mas pode acontecer. Já
chamo o médico para confirmar a situação.” A sua calma tranquilizou-me e no
meio de outros movimentos teus o batimento cardíaco regressa à normalidade,
isto é, 140/150.
Sempre gostaste de te mexer muito
dentro de mim, e mesmo com pouco espaço, continuavas a dar piruetas cá dentro,
procurando a melhor posição para te “encaixares”.
O médico apareceu poucos minutos depois
e verificou o CTG. De facto havia algo, mas desvalorizou a situação e disse-me “Vá
andar e volte daqui a duas horinhas.” Eu saí e fui ter com o papá à sala de
espera das urgências gerais. Expliquei o que tinha acontecido e fomos andar,
tranquilamente e felizes! O papá ligou logo para o trabalho a avisar que não
iria nesse dia (14 de maio de 2014) porque tu ias nascer. Ligamos à família e
dissemos que vinhas a caminho, mas que avisaríamos
quando chegasse a tua hora! Pedi ao teu avô médico que não viesse ao hospital
porque não estávamos lá e que o chamaria quando voltássemos.
Depois de vir desde o hospital
até ao parque urbano de Albarquel e voltar, entramos na sala de espera das
urgências obstétricas por volta das 9h45. Fiquei muito nervosa ao ver que o teu
avô já lá estava, mais ansioso do que nós! Eu tinha-lhe pedido que não fosse…
mas em vão. Já tinha falado com a equipa, que era “cinco estrelas”. Conhecia o
médico responsável pois tinham feito internamento juntos e estava lá uma
enfermeira conhecida, mais antiga. Descansei por saber que a enfermeira que nos
tinha acompanhado durante a gravidez nas aulas de preparação para o parto
também lá estava.
A porta de entrada abriu-se e vinha
a sair uma médica pouco simpática que assim que me viu e que reparou que era
filha de um colega levou-me pelo braço e disse “então vamos lá despachar isto
antes de eu ir beber café”. Levou-me para uma sala de observações e fez-me um
toque vaginal. Tinha cerca de 2 cm de dilatação e o colo do útero ainda muito
rijo.
Saímos da sala e senti-me
perdida. Para onde ir? O que fazer agora? Até que encontrei a enfermeira que me
tinha acompanhado durante a gravidez. Ela avisou-me que o médico responsável
pela equipa era contra os partos na água e que estava nesse momento a “fazer a
cabeça ao teu pai” para que desistisse da nossa decisão com base no primeiro CTG.
Estavam todos estupefactos pelo facto de me terem deixado sair, pois de acordo
com o “tal” CTG nem devia ter saído da sala, quanto mais do hospital.
Fui, então, abordada pelo médico
responsável que me disse muito carinhosamente: “Minha querida, sabes que com
este CTG não te posso deixar ter o bebé na água. Eu não me vou responsabilizar
se correr mal. Não te posso assinar os papéis para o teres na água porque não
há nada que comprove que é seguro. Sabes, já não é necessário as mulheres
sofrerem para terem os filhos… a ciência evoluiu e já não estamos na época das
cavernas (risos)… já podes ter sem dor e acelerar o processo para não teres de
ficar aqui o dia todo à espera da dilatação. Pensa nisso!”. Eu agradeci a
gentileza mas disse que nos tínhamos preparado para te receber na água e que
gostaríamos muito que assim fosse. Ele referiu que tínhamos de monitorizar mais
vezes para ver se os novos CTG não apresentavam alterações, e que “logo se vê”.
Não perdi imediatamente a
esperança, mas aumentei os níveis de ansiedade. A pressão era, agora, mais do
que muita! Tinha de fazer a dilatação e tinha de correr tudo bem com os novos
CTG… que pressão! O papá entrou para junto de mim e transmitiu-me alguma
segurança, mas estava tão apreensivo quanto eu. A enfermeira mais velha
ofereceu o quarto adjacente à sala de CTG para que pudesse utilizar o chuveiro
com a bola de pilates e para que estivéssemos mais tranquilos. Apesar de sermos
bem tratados, estávamos desconfortáveis com toda a situação e apreensivos. A
cada meia hora vinha a enfermeira mais velha para me “observar” e o médico
aparecia para me mostrar os papéis do consentimento informado sobre a epidural.
Repetia que não estávamos na era pré-histórica e que podia “despachar isto”
mais depressa de pusesse algo “a correr na veia”. Indignada com tanta
insistência, agradecia cordialmente mas assim que ele saía do quarto partilhava
com o papá as dúvidas que iam surgindo! E se tu estivesses realmente em
sofrimento? E se fosse mesmo melhor acelerar o processo, visto que o trabalho
de parto tinha estagnado nos 2,5 cm de dilatação e as contrações estavam a
diminuir substancialmente de intensidade e frequência? E se não pudesse ter-te
na água?
Só me apetecia chorar. Estava
arrasada emocionalmente! O teu papá consolava-me e dava-me forças para
continuar. Dizia-me que estava lá comigo para o que decidisse e que o que
interessava é que estivesses bem. A enfermeira que nos acompanhou também me
consolava e dava ânimo dizendo que o primeiro CTG não era significativo e que
eu ia conseguir receber-te como tínhamos sonhado! O enfermeiro chefe também nos
apoiou e disse “Se precisarem ficar aqui uma semana a fazer a dilatação, ficam!
Ninguém está com pressa!”
Mas as horas passavam, a pressão
aumentava e tu não davas sinais de querer “sair”. Pudera! Com tanto entrave e
um ambiente tão estranho, quem gostaria de sair de dentro de um meio
confortável e seguro?
As horas passaram e chegou a hora
de almoço. Disseram-nos para ir ao refeitório almoçar e apanhar ar.
Regressaríamos quando quiséssemos. Nós fomos. Descemos no elevador e fomos até
ao refeitório. Estava agoniada das dores e stress. Não me apetecia comer nada,
só queria que tu nascesses na água! Só me apetecia chorar e sair dali!
O papá comeu um prato com strogonoff
de peru e eu comi uma sandes de ovo e bebi um chá de frutos vermelhos para
ajudar à dilatação. Sentamo-nos na esplanada a apanhar um ar quente e pouco
agradável, tal como o dia estava a ser! Estávamos ambos exaustos e sem forças
emocionais para continuar naquela pressão. As contrações começaram novamente a “apertar”
e voltamos para a urgência de obstetrícia.
Assim que lá entramos, mais um
toque vaginal em plena contração e mais um diagnóstico avassalador: “2,5 cm de
dilatação e colo do útero rijíssimo!” Não admira, pois tinha sido “tocada” em
plena contração…
O médico voltou a referir que não
assinaria os papéis para te ter na água e que não precisava estar a arrastar “isto”
tanto tempo. Como se “isto” fosse algo banal… Até poderia ser para alguém que
assiste a centenas de partos por ano, mas para nós “isto” era a tua chegada à
nossa família! Era o momento em que te veríamos e tocaríamos pela primeira vez.
Era o momento em que te poderíamos dizer, olhos nos olhos, que te amamos mais
do que tudo nesta vida! Era o momento em que choraríamos de emoção por te
sentir junto ao nosso peito. Era o nosso momento de amor mais intenso que
existe no mundo! Mais ainda do que o momento de amor em que foste concebido!
As horas passaram e nada se
alterava. O papá chegou a cochilar na cama do quarto em que estávamos, mas foi
logo repreendido pelo médico que disse que as suas calças de ganga
transportavam bactérias da rua para dentro do hospital. O papá ficou
envergonhado e sentou-se na cadeira, onde acabou por adormecer de tanto
cansaço!
O turno dos enfermeiros mudou.
Entrei em pânico. Ia-se embora a “nossa” enfermeira! Ia-se embora o nosso pilar
emocional! E agora? Embora ela tenha referenciado outra enfermeira de sua
confiança que tinha entrado no turno seguinte, não fiquei descansada. Essa
enfermeira disse-me para tentar dormir e sugeriu que o papá esperasse em casa,
descansando lá também. Assim fizemos, mas não conseguia descansar. Estava
incomodada em estar a ocupar um quarto que poderia ser para outra grávida “realmente”
em trabalho de parto. Fiquei envergonhada por estar há tantas horas sem
conseguir nenhum avanço! Fiquei realmente desapontada por estar longe do que tínhamos
imaginado que seria a tua chegada!
Passadas umas horas, perto das
20h, a enfermeira veio ter comigo e disse: “O Dr. vai dar-te alta. Vais para
casa e voltas quando estiveres como esta rapariga que vai entrar daqui a pouco
para o CTG. Ela está com 5 cm de dilatação e vai parir na água!”. Confesso que “morri”
de inveja! Porque é que não tinha esperado mais? Porque é que vim tão cedo? Eu
também devia estar naquela posição!
Sentei-me novamente na cadeira do
CTG para fazer mais um, antes de ir para casa. Vejo entrar, no fundo, uma das
raparigas que fez conosco o curso de preparação aquática em Palmela. Sorrio mas
só tenho vontade de chorar. Observo-a com afinco. Cada passo que ela dá, cada
expressão, cada inspiração. Penso: “Só volto quando estiver muito pior do que
ela!”
O papá foi buscar-me e voltamos
para casa. No caminho chorei. Quando chegamos a casa, chorei novamente. O papá
foi jantar com os teus avós, os seus pais, enquanto eu fiquei sozinha em casa a
refletir e descomprimir o stress e frustração de um dia muito cansativo física
e emocionalmente!
Chorei, chorei, gritei para
dentro de mim e tu ouviste! Subitamente as contrações regressaram. Vinham de 8…6…5…3
em 3 minutos… cada vez mais fortes! Tomei um novo banho, mas a água quente
pouco acalmou. Quando saí do banho já não conseguia suportar as dores.
Aliviavam um pouco quando soltava um “aaaahhhh”, ao mesmo tempo que respirava!
O papá chegou a casa e encontrou-me
no meio de um forte “aaaaahhhhhh”. Olhou para mim assustado e ligou para a
enfermeira que nos tinha seguido durante a gravidez. Ela disse que estava a
caminho de Setúbal, que aguardássemos mais meia hora, mas neste momento as
dores eram mais do que muitas e não estava a conseguir suportá-las. Combinamos,
então, encontrar-nos no hospital.
Entrei no carro mas mal me
conseguia sentar. Agarrava a porta com força e continuava no meu mantra dos “aaaahhhh”,
enquanto fechava os olhos. Quase não conseguia andar e muito menos falar.
Qualquer trepidação causava a sensação de milhares de facas atravessando os
meus rins.
Chegamos ao hospital às 23h e
poucos minutos. Subimos entre vários “aaaahhhhh” e respiração ofegante. Quando
cheguei à receção iniciei com muita dificuldade o processo de inscrição, mas o
administrativo disse que eu ainda estava “internada” pois tecnicamente não me
teriam dado alta. Neste ponto já nem conseguia abrir os olhos, pelo que uma
enfermeira me veio buscar à entrada e levou para uma sala de observação.
Despi-me, mais uma vez, da cintura para baixo e fui “tocada”. Estava com 5 cm
francos e o colo do útero apagado.
Mais uma vez, tive de fazer um
CTG, mas desta vez as contrações fortíssimas impediam-me de me sentar. Já só
dizia “aaahhhhh” sem conseguir abrir os olhos. Tive uma estranha e horrível
sensação de vómito e pedi um saco pois parecia que ia vomitar. A enfermeira
começou a ficar nervosa e demorou bastante tempo a colocar o foco do CTG. Não
conseguia encontrar o teu coração… apenas um fraco foco de 80 e pouco. O papá
chegou a ver 130 no monitor, mas rapidamente desapareceu pois a enfermeira não
fixava o foco em sítio nenhum.
Neste impasse chegou o médico que
nem esperou encontrar o foco do bebé, nem fez ecografia para conferir, nem me
observou. Apenas disse para me levar imediatamente para o bloco de cesariana.
Só me apetecia gritar “NÃÃÃÃOOO!”
Não queria cesariana!!! Não tinha sido isso que sonhamos para este momento! Só
orava em voz alta “Deus meu, salva o meu bebé!”
A enfermeira tremia enquanto
procurava uma bata e uns chinelos para mim. Mandou-me despir ali mesmo e vestir
a bata. A custo tirei o vestido que trazia e vesti a bata. Fui pelos meus
próprios pés até à sala de cesariana. Se o bebé estivesse mesmo em perigo não
teria sido melhor levar-me numa cadeira de rodas?
A meio do caminho um senhor com
sotaque espanhol abordou-me. Era o anestesista. Perguntou-me quando tinha
comido pela última vez. Respondi que teria sido pelas 21h e pouco pelo que ele
franziu o sobrolho. Perguntou-me muito rapidamente se era alérgica à penicilina
ou algum outro fármaco, e eu respondi negativamente com a cabeça, pois nem conseguia
abrir os olhos, nem conseguia falar.
O papá seguia-me, incrédulo e
nervoso. Não sabia o que fazer nem para onde ir. Eu estava completamente em
choque com a notícia da cesariana. Não parava de gemer “aaaaahhhh” e só queria
que me acordassem daquele pesadelo! O pior estaria para vir…
Mandaram-me subir para uma maca
alta. Com muito custo me sentei na mesma, mas rapidamente se aperceberam que
não tinham posto um lençol e mandaram-me levantar novamente. Desci da maca com
muito custo, esperei que pusessem o lençol e sentei-me outra vez lá em cima.
Empurraram-me para dentro da sala, uma sala que me pareceu vazia e fria, onde a
luz branca me encadeava a vista. A última imagem que me ficou foi do médico
vestido com uma bata verde e uma máscara, calçando as luvas brancas com as mãos
para cima. Tal como nos filmes… no meu caso um filme de terror!
O médico anestesista pediu-me
para me inclinar para a frente e não me mexer para que me administrasse a
epidural. A enfermeira estava à minha frente, segurando-me. Assim que a agulha
entrou na minha espinha, uma descarga elétrica fez com que a minha perna
direita desse um forte e involuntário pontapé. A enfermeira repreendeu-me de
seguida: “Esteja quieta, o médico disse para não se mexer!” Eu nem quis
acreditar! “Mas eu não me mexi… foi sem querer!”, respondi a custo no meio de
gemidos.
O anestesista mandou-me deitar
sozinha e levantar as pernas. Fiz o que me disse e comecei a ver todos
aproximar-se de mim com os seus instrumentos.
“Eu ainda sinto as pernas!”,
disse em pânico quando senti uma compressa fria com betadine ser passada na
minha barriga!
“Esperem, ela ainda está a sentir…
la anestesia no fez efeito ainda”, disse o anestesista com o seu sotaque
espanhol, mas foi ignorado pelo médico que prontamente enfiou o bisturi no meu
baixo-ventre e me cortou três vezes. Gritei com todas as forças para afastar a imensa
dor… dor de um corte a “sangue frio”… dor de um “corte” num sonho… dor de um “corte”
em todas as expectativas de um momento mágico que se tornou num autêntico
pesadelo!
O anestesista reforçou-me a
anestesia colocando-me uma máscara na cara, mas as dores que senti quando as
mãos entraram dentro de mim e te arrancaram superaram qualquer anestesia!
Parecia que todo o meu interior estava a ser sugado… e quando pressionaram a
barriga para que saísse a placenta senti que iria desmaiar de tanta dor! Não
fosse a força do teu choro, teria desmaiado com tanto sofrimento físico. O teu
choro me deu forças para continuar consciente e presente. O teu choro me trouxe
algum alento pois indicava que estavas bem! Para além disso, as palavras do
médico: “Pronto, o bebé está bem… não há sinais de descolamento da placenta…
vou coser…”
Não há palavras para descrever a
dor sentida neste dia! Dor de não te ter sentido junto ao meu peito assim que
nasceste, apenas te ter visto e beijado quando aproximaram o teu rostinho tão
lindo com os olhos bem abertos. Dor de não ter tido o papá ao meu lado neste
momento de grande sofrimento. Dor de ter sido tratada como um objeto e de não
ter sido ouvida, nem quando gritava “ainda estou a sentir”! Dor de não terem
deixado o cordão pulsar até ao fim, nem do papá não ter podido cortá-lo. Dor de
não saber o que estava a acontecer e pensar que poderias estar em sofrimento.
Dor de ter ficado com uma memória tão negra de um momento mágico que é deixar
sair de nós vida! Dor de ficar com uma cicatriz externa que me relembra estes
momentos sempre que olho para ela.
Quando te vi, tão pequenino, com
os olhos e braços abertos, com uma carinha tão linda mas expressão meio “perdida”
pois tinhas sido arrancado da tua mamã de forma tão brutal, chorei de emoção e
só conseguia dizer: “meu filhinho… és tão lindo! A mamã ama-te muito!” Pedi que
te levassem ao papá, para que fizesses contacto “pele a pele”. Isso eles
respeitaram, e ainda bem!
Finalmente, enquanto me cosiam e
agrafavam, ouvi o anestesista perguntar, indignado: “Então e o soro?”. Ouvi uma
voz envergonhada dizer “Oh! Esqueci-me!”. O anestesista mostrou a sua
indignação dizendo “Isto não pode acontecer!”, e rapidamente alguém me picou a
veia da mão direita e colocou o soro a correr.
Fui levada para a sala do recobro
onde esperei por vocês, os meus homens! Senti-me sozinha. Tão sozinha e perdida
no meio de uma sala estranha… acabada de vivenciar o momento mais estranho da
minha vida! Avistei-vos e sorri. Colocaram-te deitado a meu lado e
imediatamente procuraste pela minha maminha. Não esperava ter leite, mas tu
imediatamente puxaste com tal força que saiu de mim um pouco dessa “água” que
sacia.
O parto… um momento traumatizante
para a maioria das mulheres. E porquê? Não deveria ser assim! “Com dor darás à
luz filhos” (Génesis 3:16), disse Deus a Eva quando esta ofereceu o fruto
proibido a Adão, mas esta dor é uma dor que traz a recompensa de uma criança
nos braços. É a dor natural das contrações que ajudam o bebé a encontrar o
caminho para a vida! Não é uma dor provocada por homens e mulheres com os seus
instrumentos, mexendo e remexendo no interior de uma mulher em situação
vulnerável!
O parto pode e deve ser uma das
melhores memórias que existem na vida de um casal…de uma família! O parto pode
e deve ser uma experiência única, linda e especial! Por isso disse à saída da
sala de cirurgia e volto a dizer, hoje, que para a próxima vez não será assim!
O próximo parto será um parto memorável e mágico!
Mulheres que passaram por
situações semelhantes à minha, não se conformem! Temos direitos: os direitos
humanos no nascimento! Temos leis que nos suportam e dão força para que esse
dia seja especial!
De facto, apenas uma memória é
capaz de apagar outra. Por outras palavras, as memórias permanecem na nossa
mente até que uma nova experiência substitua a memória antiga de um
acontecimento semelhante. Assim, eu quero criar “novas” memórias e mal posso esperar
pela próxima oportunidade de trazer mais um ser à vida!

Estou em choque com o que li, mas passei infelizmente por igual episodio, com a agravante de a minha filha ser prematura, sim prematura de 31 semanas... Ainda somos tratadas como "GADO".
ResponderExcluirDesejo te imensas felicidades Lara e restante Família.
Nossa, que horror, me entristeci muito ao ler seu relato.. Pode dizer qual médico lhe fez esta brutalidade? Tem um médico desde hospital que já fiz queixa dele e queria saber se é o mesmo.
ResponderExcluir