sábado, 22 de março de 2014

Aproveitando a gravidez… ou talvez não

Na sociedade atual é natural que a mulher trabalhe fora de casa. Esta ideia, contudo, nem sempre foi pacífica pois os papéis sociais associados aos sexos feminino e masculino diferiam muito no início do século XX. As mulheres ficavam em casa com os filhos enquanto os homens trabalhavam fora de casa. Com o início da era industrial, as famílias migraram do campo para as periferias das cidades, necessitando ajustar-se à vida nas mesmas e ao trabalho nas fábricas.

A Primeira Guerra Mundial veio, igualmente, alterar a posição da mulher na sociedade laboral. Uma vez que os homens combatiam ativamente nas frentes da Grande Guerra, as mulheres (sobretudo as de classes sociais mais elevadas e, portanto, mais instruídas e permeáveis às mudanças) começaram a ocupar o lugar dos homens quer nas fábricas, quer na gestão de empresas e saúde. Quando a Guerra terminou, as mulheres não quiseram voltar à vida anterior de dependência económica dos maridos, e permaneceram nos cargos ocupados durante a Guerra. Iniciou-se o movimento feminista e emancipação da mulher, deixando esta de ser a humilde dona de casa que trabalha e vive para a família[1].

Ao falar do trabalho da mulher fora de casa, abordamos alguns aspetos como a autonomia financeira da mulher, a gestação e criação de filhos, a sua relação com o cônjuge, a partilha da renda familiar, os sentimentos de culpa pela ausência no lar, a falta de tempo para si mesma, entre outros. De facto, a produtividade económica atual apenas considera uma mulher como sendo “trabalhadora” se esta exerce a sua atividade fora de casa, ou seja, quando a sua atividade é remunerada.

 Infelizmente, a sociedade deixou de valorizar e reconhecer o trabalho que as mulheres desempenham dentro de casa. O cuidado pela casa, roupa, alimentação, educação e cuidado dos filhos, organização e gestão dos assuntos relativos à casa e a dedicação ao marido deixaram de ser encarados como “trabalho” e são considerados uma obrigação da mulher enquanto esposa e mãe. Assim, para além da sua profissão que lhe ocupa entre 8 a 10 horas diárias (muitas vezes mais), a mulher ainda se deve preocupar em ir buscar os filhos à escola, cuidar da sua higiene e alimentação, ajudá-los nos trabalhos de casa, entretê-los, estimulá-los, dar-lhes carinho e atenção (quando tem uma pilha enorme de roupa para passar a ferro e um lavatório cheio de loiça, um frigorífico e uma despensa por encher, panelas ao lume, pó nos móveis e cotão pelo chão bem como, muitas vezes, um cão/gato/pássaro/etc. para tratar). Será justo?

 Não estou, com este discurso, a diminuir o trabalho do homem nem a sua função no lar pois em muitos casos os papéis invertem-se e é este que tem a responsabilidade redobrada de cuidar da família e trazer sustento financeiro para casa. No entanto, a minha visão é que se perdeu o sentido real de “cuidado” pela família! É praticamente impossível, quer para a mulher quer para o homem, realizar tantas tarefas em simultâneo… pelo menos ser bem sucedida/o em todas! Há sempre algo que é descurado, infelizmente, o mais comum é a educação e cuidados emocionais aos filhos e marido/esposa pois estes aspetos são os que menor impacto têm na saúde física a curto prazo (embora os seus efeitos a longo prazo na saúde emocional e psicológica sejam brutais).

 A rotina familiar passou a ser um contra-relógio! Por exemplo, numa família cujos pais tenham um horário de trabalho fora de casa das 9h às 17h (o que raramente acontece) a rotina pode ser a seguinte:

- Despertar dos pais às 6h15/6h30 e respectiva higiene e pequeno almoço

- Despertar das crianças às 7h/7h15, seguido da higiene e pequeno almoço (entre birras e protestos por não querer acordar ou vestir algo) com a ajuda e supervisão dos pais;

- Saída de casa rumo às escolas por volta das 8h/8h30 (pois iniciam às 8h30/9h);

- Entrada no trabalho às 9h;

- Pausa para almoço das 13h – 14h (almoço em 15/20 minutos e rápida corrida aos bancos ou supermercado para comprar pão ou alguma coisa para fazer o jantar);

- Regresso ao trabalho até às 17h (muitas vezes estendido até às 18h ou 18h30 para resolver assuntos pendentes urgentes e/ou reuniões de última hora);

- Saída apressada para ir buscar as crianças ao ATL ou escola (stressando com o incrível trânsito a essa hora!);

- Transporte das crianças até casa ouvindo o seu dia e pedidos (“tenho fome”, “quero um jogo/brinquedo”…), com possível paragem num café para comprar o bolo ou gelado que é solicitado incessantemente (a esta hora a paciência começa a escassear e há-que resolver os “problemas” rapidamente para não entrar em “surto”);

- Chegada a casa por volta das 19h, banho (sob vários protestos) e trabalhos de casa (que tantas vezes dizem já ter feito mas quando revemos apercebemo-nos que não os fizeram…ou pelo menos não prestaram atenção aos mesmos… e queremos fazer “boa figura” enquanto pais dedicados e vigilantes na educação escolar dos nossos filhos!);

- Enquanto fazemos o jantar, as crianças assistem aos desenhos animados preferidos e/ou brincam;

- O cônjuge chega, dá um beijo rápido nos filhos e no/a parceiro/a, pois tem de ajudar a por a mesa;

- Às 20h/20h30 serve-se o jantar ouvindo as notícias no jornal da noite enquanto as crianças teimam em não querer comer a sopa/legumes/salada/peixe;

- Sem insistir muito, deixa-se as crianças continuar a brincar mais um pouco antes de ir para a cama enquanto o casal termina de comer e conversa durante uns 20/30 minutos;

- Um dos pais lança o ultimato para arrumarem os brinquedos e ir para a cama por volta das 21h15, pois já sabe que o ritual do deitar se prolongará por mais 30 minutos (no mínimo), entre protestos e “arrastar” das crianças para a casa de banho (pois têm de escovar os dentes e fazer os xixis da noite) e, depois, para a cama. Entretanto, o/a outro/a parceiro/a arruma a cozinha, prepara a roupa, lanches e mochila dos filhos para o dia seguinte;

- Por volta das 21h45/22h as crianças estão deitadas e pedem uma história, que é rapidamente lida pelo/a pai/mãe que ainda tem de rever um assunto pendente do trabalho ou passar a ferro;

- Finalmente, as crianças adormecem e os pais podem retomar as suas atividades “pendentes” até às 23h/23h30, altura em que estão tão cansados que assim que se deitam adormecem, deixando a intimidade para outro dia, ou para o fim de semana.

 

A sua realidade pode assemelhar-se, ou não, a este retrato geral. De facto, se os pais pensam que no fim de semana terão mais oportunidades para nutrir o seu relacionamento afetivo com o/a seu/sua parceiro/a, enganam-se pois as crianças exigem muita atenção! Para além disso, há que visitar os pais (avós) e amigos próximos que não param de convidar para um almoço/lanche.

 Efetivamente, não é fácil ser mulher neste contexto! Não é fácil, também, ser homem! A verdade é que a sociedade teceu uma rede de compromissos e obrigações que nos afastam uns dos outros e do nosso propósito máximo de sermos mães e pais atentos e presentes na vida dos nossos filhos! Podemos até estar presentes fisicamente uma boa parte do tempo, mas a presença emocional e disponibilidade em ouvir (com ouvidos reais!) o que as crianças têm para nos contar é, muitas vezes, nula devido ao cansaço extremo e preocupações da vida quotidiana!

Para uma mulher grávida, iniciam-se as preocupações quanto ao futuro! O que fazer depois do fim da licença de maternidade? Onde colocar o/a meu/minha filho/a? Como responder às suas necessidades? Será que vou conseguir conciliar o meu trabalho e a minha responsabilidade de mãe e mulher? Como manter o meu casamento? Como ter tempo para mim?

 Estas preocupações podem, a maior parte das vezes, desviar a atenção da grávida para este momento tão único e especial! Embora sejam preocupações legítimas e de extrema importância, não se deixe afetar com esse sofrimento por antecipação! Pense no tesouro que carrega dentro de si e procure gravar bem na sua memória estes momentos para que, quando as preocupações da “vida real” iniciarem, se lembre do que a motivou durante 9 meses! Procure namorar muito, reforçar os laços com o seu marido! Procure ter tempo para si, para se mimar e perseguir sonhos! Procure recarregar as baterias afetivas, pois estas reservas serão cruciais para não entrar em depressão pós-parto!

 

Acima de tudo, lembre-se o quão maravilhosa é e o quão especial é por ter gerado uma VIDA dentro de si!






[1] Pigatto et al. (2009). A emancipação feminina perante as novas perspetivas do século XXI. X Salão de Iniciação Científica – PUCRS, pp. 1987-1989.

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