sábado, 5 de abril de 2014

Alimentação na gravidez

A alimentação durante a gravidez é assunto de preocupação na sociedade científica atual, existindo diferenças entre alimentação e nutrição. Enquanto a alimentação contém uma conotação social, pois “comer com ou outros” é um ato social (acima do ato biológico), a nutrição diz respeito às necessidades físicas do corpo em repor nutrientes essenciais ao seu normal funcionamento[1]. Estabelecer esta diferença é importante para que a grávida entenda o seu corpo e saiba decifrar os seus sinais, nomeadamente, os desejos alimentares que poderão surgir ao longo deste estado.

“A grávida deve comer por dois”, é uma afirmação do senso comum que não poderia estar mais errada! Uma mulher grávida não tem de comer “por dois”, embora as suas necessidades energéticas aumentem gradualmente ao longo da gravidez.

A Associação Portuguesa dos Nutricionistas[2] refere que durante o 1º trimestre da gravidez não existe necessidade de aumento de energia, ou seja, a grávida deve continuar a comer normalmente (a nível de quantidades e variedade), sem esquecer as necessidades de consumo de ácido fólico, iodo, ferro, ácidos gordos e magnésio, existentes nos suplementos alimentares que toma diariamente. Quantas grávidas adotam este comportamento alimentar? O mais comum é que, assim que tenham a confirmação da gravidez e se sintam seguras com o seu bebé, as mulheres grávidas comecem a comer alimentos que não comiam quando não estavam grávidas (ou pelo menos não comia com a frequência/regularidade atual).

No segundo trimestre de gestação, as necessidades nutricionais aumentam para cerca de 330 kcal diárias, além das cerca de 2000 kcal recomendadas para mulheres com atividade física moderada. Vimos que nesta fase o bebé está a desenvolver-se rapidamente, justificando a necessidade do aumento do consumo energético da sua mamã.

O terceiro trimestre é muito importante para que o bebé fique “pronto” para a vida exterior, necessitando ganhar peso e gordura para poder resistir às oscilações da temperatura fora da barriguinha da sua mamã. Assim, o aumento de consumo energético da grávida deve ser ligeiramente maior neste trimestre, aumentando para cerca de 450 kcal diárias.

De facto, as grávidas devem ter bastante cuidado com o aumento de peso, pois este é um dos fatores mais associados às complicações durante a gravidez (p.e. diabetes gestacional, hipertensão) e no parto, comprometendo a saúde do bebé.

A tabela abaixo indica o aumento de peso ideal durante a gravidez[3]:

Estado Inicial
Índice de Massa Corporal (IMC)
Recomendação do aumento de peso
Aumento de peso por semana a partir do 3º Trimestre
Magreza
IMC <19,8
12,5-18 Kg
0,5 Kg
Normal
IMC 19,8-26
11,5-16 Kg
0,4 Kg
Excesso de Peso
IMC > 26-29
7-11,5 Kg
0,3 Kg
Obesidade
IMC > 29
Até 7 Kg
 
 
Gravidez de Gémeos
15,9-20,4 Kg
0,7 Kg

 
O baixo aumento de peso da mulher no início da gravidez (dois primeiros trimestres) pode causar, ainda, bastante desconforto nos familiares e amigos próximos da grávida, enquanto o contrário é perfeitamente justificável e considerado “normal”. Eu própria vivi esta “angústia” por parte dos meus familiares e marido, pois durante 6 meses de gravidez apenas tinha aumentado 3-5 kg em relação ao meu peso inicial. Cheguei a ter discussões acesas pois as pessoas à minha volta defendiam que eu não comia a quantidade necessária. Tentei explicar-lhe que não devia comer para além do que o meu corpo pedia naturalmente, mas não foi fácil convencê-los pois existe esta teoria popular de que a mulher grávida deve alimentar-se “por dois”.

Se o seu peso é motivo de preocupação geral, procure o seu médico assistente e peça-lhe a opinião. No meu caso ajudou bastante, pois a minha médica disse que o meu aumento de peso estava excelente para as necessidades do bebé, devendo-me apenas preocupar se a barriga parasse de crescer (em sinal da paragem de crescimento do bebé).

Relativamente aos desejos alimentares, os mais antigos acreditavam que se a mulher não comesse o(s) alimento(s) desejado(s), o bebé iria nascer deformado ou seria afetado de alguma forma negativa no seu desenvolvimento[4]. Ainda é comum ouvir-se na gíria “se não comer isto o bebé vai nascer com cara de…”, o que se torna por vezes hilariante. Mas o que significam estes “apetites”? Será que eles existem mesmo ou serão apenas uma boa desculpa para uma mulher comer alimentos “proibidos” ou que normalmente não comeria caso não estivesse grávida?

Um estudo realizado pelo site BabyCenter[5] verificou que cerca de 40% das grávidas desejava alimentos doces enquanto cerca de 33% tinha vontade de ingerir snacks salgados. A comida condimentada surge em terceiro lugar, com cerca de 17% das mulheres e, por fim, cerca de 10% sentia desejo de comer frutos cítricos ou alimentos mais ácidos. Vemos, então, que o palato de uma grávida varia de mulher para mulher e que é, na sua maioria, preferencial para alimentos doces, em detrimento dos ácidos, por exemplo. Mas por que é que tal acontece? Haverá alguma razão biológica para que isto aconteça, ou serão estes desejos apenas psicológicos ou emocionais?

Alguns autores defendem que os desejos na gravidez encontram-se associados a necessidades biológicas, ou seja, o corpo necessita de determinadas vitaminas, proteínas, etc. e, em consequência, “pede” à mulher que ingira determinados alimentos ricos nas suas necessidades através de desejos[6].

Se, por um lado, este fator tem a sua lógica científica, é necessário ressaltar o facto de que muitas grávidas se aproveitam deste “estado” para comer tudo aquilo que tinham eliminado da sua dieta regular por motivos estéticos ou sociais. De facto, uma mulher grávida cujo índice de massa corporal (IMC) esteja acima do considerado normal para a sua altura e peso pode deliciar-se comendo um bolo enorme recheado com bastante doce de ovos sem se sentir culpada ou desaprovada socialmente, enquanto uma mulher nas mesmas condições físicas exceto a gravidez é alvo de olhares castradores, sentindo o peso da culpa por ter ingerido tantas calorias (pelo menos em público)[7].

É preciso ter em conta que poderão surgir desejos ou vontades específicas alimentares durante a gravidez. Cabe à grávida ter o bom senso de avaliar a necessidade real de tal desejo, a sua natureza (será uma carência física ou um escape emocional para alguma ansiedade relacionada com o seu estado?) e aceder ou não à mesma, não esquecendo que o bebé apenas necessita do que a sua mamã lhe dá através do sangue. Ou seja, para que um bebé cresça e se desenvolva saudável, necessita de um sangue limpo e saudável da mãe. Por isso, antes de comer algo cheio de gorduras ou açúcares que poderão afetar os valores de colesterol ou provocar diabetes gestacional, lembre-se que o seu bebé precisa de um sangue saudável para crescer!

Acima de tudo, devem prevalecer o bom senso, a temperança e o equilíbrio na alimentação e vida em geral!

Apenas como curiosidade, partilho uma tabela com as porções diárias recomendadas pela Associação Portuguesa dos Nutricionistas, de acordo com a Roda dos Alimentos[8].

Grupo de Alimentos
Porções aconselhadas
Uma porção
Cereais, Derivados e Tubérculos
 
 
10 Porções
1 pão (50g)
1 fatia fina de broa (70g)
1 e ½ batata - tamanho médio (125g)
5 colheres de sopa de cereais de pequeno-almoço (35g)
6 bolachas - tipo Maria/água e sal (35g)
2 colheres de sopa de arroz/massa crus (35g)
4 colheres de sopa de arroz/massa cozinhados (110g)
Hortícolas
4 Porções
2 chávenas almoçadeiras de hortícolas crus (180g)
1 chávena almoçadeira de hortícolas cozinhados (140g)
Fruta
4 Porções
1 peça de fruta - tamanho médio (160g)
Lacticínios
3 porções
1 chávena almoçadeira de leite (250 ml)
1 iogurte líquido ou 1 e 1/2 iogurte sólido (200g)
2 fatias finas de queijo (40g)
¼ de queijo fresco – tamanho médio (50g)
½ requeijão - tamanho médio (100g)
Carne, peixe ou ovos
4 Porções
Carnes/pescado crus (30g)
Carnes/pescado cozinhados (25g)
1 Ovo - tamanho médio
Leguminosas
2 Porções
1 colher de sopa de leguminosas secas cruas (25g)
(ex: feijão, grão-de-bico, lentilhas)
3 colheres de sopa de leguminosas frescas cruas (80g)
Gorduras
2 Porções
1 colher de sopa de azeite /óleo (10g)
1 colher de chá de banha (10g)
4 colheres de sopa de nata (30 ml)
1 colher de sobremesa de manteiga/margarina (15g)
Água
2L
8 a 10 copos de água

 

Deixo, igualmente, uma sugestão de uma dieta equilibrada para um dia[9].

Pequeno-almoço

Uma chávena de leite Meio gordo com cevada

Um pão de cereais com 15 g de queijo fresco

Um Kiwi

 

Meio da manhã

Seis bolachas do tipo Maria

Um iogurte sólido de aroma

 

Almoço

Um prato de sopa (base: courgette, feijão, alho francês, nabo, cenoura, cebola, alho, tomate; + couve lombarda)

Bifinho de peru estufado com ameixas

Três colheres de servir rasas, de arroz malandro de brócolos e tomate

Uma maçã de tamanho pequeno

 

Meio da tarde 1

Um pão de cereais com uma fatia fina de fiambre de peru

Uma chávena de leite Meio gordo com cevada

 

Meio da tarde 2

Quatro bolachas de água e sal cream – creaker

 Uma Laranja de tamanho médio

 

Jantar

Creme de couve-flor com amêndoas

Beringela recheada com legumes e atum fresco (posta de atum fresco desfiado)

Três colheres de servir rasas, de puré de batata

Couve-flor, brócolos, cenoura e couve-de-bruxelas cozidas a vapor

Esperada de frutas tropicais (manga, papaia, abacaxi, kiwi, banana, maçã, pêra, uva)

 

Ceia

Uma chávena de chá de tília

Seis Bolachas de água e sal redondas

 

Não se esqueçam destas pequenas dicas, mas muito importantes para o seu bem estar e do bebé[10]:

  • Tomar sempre o pequeno-almoço pois é uma das mais importantes refeições do dia, prevenindo episódios de hipoglicémias, caracterizados por suores frios, falta de forças, desfalecimento/desmaio e mesmo coma hipoglicémico.
  • Não estar mais de 3 a 3,5h sem comer (5 – 7 refeições/dia), para que ao longo do dia, o organismo tenha acesso aos nutrientes e energia necessários.
  • Iniciar as refeições principais com um prato de sopa e acompanhá-las com saladas ou legumes, assegurando, desta forma, a quantidade ideal de vitaminas, minerais e fibra pois a obstipação é bastante frequente durante a gravidez.
  • Comer calmamente e mastigar muito bem os alimentos.
  • Variar os métodos de confeção, optando pelos mais saudáveis: estufados e assados em pouca gordura, grelhados, cozidos a vapor, cozidos.
  • Evitar os fritos.
  • Reduzir o consumo de refrigerantes e sumos de fruta  pois contém muito açúcar e não matam a sede.
  • Comer diariamente carne, peixe ou ovos, para obter proteínas, nas quantidades necessárias.
  • Limitar o consumo de carnes gordas (carne de vaca, carne de porco), preferindo carnes magras (frango, peru, coelho) e retirando peles e gorduras visíveis.
  • Controlar a ingestão de gordura na confeção e tempero dos alimentos, preferindo azeite.
  • Reduzir o sal e a gordura para temperar usando maior quantidade de cebola, alho, tomate, pimento e ervas aromáticas.
  • Beber 2 litros de água por dia. A água de muito importante para o crescimento e desenvolvimento da placenta e líquido amniótico, do feto, para além disso, é importante para regular o intestino.
  • Praticar atividade física moderada.



[1] Baião, M. & Deslandes, S. (2006). Alimentação na gestação e puerpério. Rev. Nutrição, Campinas, 19(2):245-253
[3] Position of the American Dietetic Association: Nutrition and Lifestyle for a healthy pregnancy outcome”, ADA, 2008
[4] Helman CG. (1994). Cultura, saúde e doença. Porto Alegre: Artes Médicas.
[6] Baião, M. & Deslandes, S. (2006).
[7] Ibid.
[8] “A Nova Roda dos Alimentos Portuguesa… um guia para a escolha alimentar diária!”, FCNAUP, IC, Ministério da Saúde, 2003; “Position of the American Dietetic Association: Nutrition and Lifestyle for a healthy pregnancy outcome”, ADA, 2008
 [9] Associação Portuguesa dos Nutricionistas

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