Uma das frases que mais tenho
ouvido ultimamente tem sido “Aproveita agora porque depois vais sentir
saudades!”. Confesso que esta frase me traz desconforto… Aproveitar….
Aproveitar para dormir, passear, fazer coisas que gosto, ir à praia,
descansar... tudo coisas que tenho de “aproveitar” para fazer agora, ainda
grávida. Esta é a ‘sabedoria’ popular. Estes são os conselhos de mães e pais
experientes. Esta é uma ideia que me incomoda severamente!
Tenho pensado bastante nestes
detalhes nestes últimos dias. Aproveitar? O que significa isso? Segundo o
dicionário online Priberam (http://www.priberam.pt)
o verbo transitivo “aproveitar” significa “tirar proveito de; tornar
proveitoso, útil”. Será que este conselho quer dizer que tomar uma decisão
consciente de aumentar a nossa família, com tudo o que isso implica (noites sem
dormir, preocupações constantes, muitas lágrimas, muitas alegrias, despesas
extra, sacrifícios próprios) necessita “tirar proveito” em meu favor de uma
fase tão altruísta que é estar grávida e, mais tarde, ser mãe? Será que o facto
de ser veículo de tamanho milagre que é gerar vida não é proveitoso ou útil por
si só?
Não quero, com esta reflexão,
ferir a quem de boa vontade quer alertar para as tremendas responsabilidades
que a vida de um casal sofre com a chegada de um filho! É necessário reforçar
que compreendo estes conselhos e respeito profundamente quem os dá, pois sei
que a intenção é prevenir acerca das mudanças profundas após o nascimento de um
bebé. Não se tratam apenas de mudanças nas rotinas, mas mudanças nas
prioridades, nas escolhas, nas decisões, nas preocupações, nos esforços, nas
hormonas e no próprio relacionamento entre pai e mãe.
Esta reflexão apenas pretende
realçar uma cultura, uma mentalidade global que assenta no proveito próprio, no
prazer, na vivência do momento, na satisfação dos impulsos, esquecendo-se das
características nobres do ser humano: abnegação, generosidade, sacrifício,
obstinação, brandura, domínio próprio, fé, audácia, resiliência. Quem dentre a
minha geração conhece o real significado destas palavras? Quem dentre a minha
geração coloca em prática estas pérolas da personalidade?
Já foi referido, num post anterior deste Blog, que a decisão
de alargar a família implica inúmeras escolhas que não são certamente fáceis!
Há que modificar condutas, pensamentos, prioridades, estilos de vida. Será que
o casal pensa em tudo isto quando ingressa no papel de pai e mãe? Seria
desejável que sim.
Num mundo tão naturalmente
egoísta e individualista, o que importa é o momento e o prazer que posso
retirar dele. Esta é uma atitude naturalmente aceite pela sociedade. Ou seja,
quando escolhemos ter um filho, escolhemos tê-lo para satisfazer as nossas
necessidades narcísicas de exibir um bebé lindo, uma criança divertida e
esperta, um jovem desportista ou um adulto bem sucedido? Ou será que escolhemos
ter um filho porque necessitamos materializar um sentimento abstrato como é o
amor? Analisando profundamente as duas opções, concluo que ambas refletem o que
referi anteriormente: são uma resposta a necessidades pessoais!
Torna-se, assim, extremamente
difícil colocar em prática este desejo idílico de altruísmo incondicional, o
que me incomoda pois pensava que o possuía. É verdade que dar-se a alguém através
de uma relação, dar-se literalmente de “corpo e alma”, tem consequências e uma
delas é gerar Vida! Mas por mais romântica ou maravilhosa que possa ser este
facto, não existe sem custos. Os custos são para os pais, que vêem as suas
vidas completamente modificadas e centradas em torno do novo ser, fruto do seu
Amor. No entanto, os custos são mais elevados para esse ser tão desejado e
amado! Vejamos, a criança nasce indefesa. Possui capacidades precoces incríveis
que lhe permitem sobreviver, tal como os outros seres deste planeta (as quais
serão abordadas noutro post), mas
nasce com custos elevados para a sua vida. Estes custos são: doenças, dores,
fome, emoções por vezes incompreendidas (até pelos pais inexperientes),
sentimentos confusos, responsabilidades, desafios, necessidade de tomar
decisões constantes, escolhas ambíguas, ciladas, desilusões (com amizades,
amores, familiares, expectativas, etc.), e esta lista vai aumentando consoante
a individualidade de cada um, pois há quem nasça com deficiências e necessidades
especiais…
Apesar disto tudo, devo
aproveitar esta fase em que ainda me encontro, não valorizando demasiado estas
dificuldades naturais à vida humana? Certamente que sim. Certamente aproveito.
Certamente amo estar grávida, sentir o meu bebé mover-se dentro de mim e
responder quando lhe falo ou canto. Certamente amo sentir que estamos
constantemente ligados um ao outro, física e emocionalmente. Certamente amo
este estado de “graça”. De graça geramos Vida, pois de graça nos foi concedida
a capacidade de Amar!
Aproveito o dom da Vida a cada
momento e mais intensamente nestas últimas semanas, dias ou horas de gravidez.
Aproveito a incerteza do momento em que o conhecerei pessoalmente, procurando
estar atenta aos sinais que o meu corpo emite. Aproveito para pensar mais
seriamente na responsabilidade de ter um bebé 24 horas por dia, 365 dias por
ano a meu cargo. Este bebé tornar-se-á uma criança, adolescente, jovem, adulto
e idoso sob o meu amor incondicional, amor este que jamais morrerá ainda que o
meu corpo se apague e o meu fôlego regresse a quem me soprou nas narinas no dia
em que nasci, 21 de outubro de 1983. Este amor é eterno.

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