domingo, 10 de agosto de 2014

Tornar-se mãe: os primeiros dias no hospital


Uma mamã com parto sem intercorrências tem um internamento de 48 horas. Passadas essas 48 horas a mamã e bebé são (re)avaliados e, se ambos estiverem bem, têm alta.

No caso de cesariana o internamento prolonga-se para as 72 horas. Se, passados os três dias, a mamã e bebé estiverem bem, poderão ir para casa.

Para as muitas futuras ”mamãs de primeira viagem” que não sabem o que se passa durante o tempo de internamento, posso dizer que não são dias “parados” ou sem nada para fazer. Pelo contrário! Posso partilhar a minha experiência de um parto por cesariana.

O nosso bebé nasceu às 23h36 do dia 14 de maio de 2014. Quando ele nasceu, ouvi o seu forte choro e, minutos depois, pude dar-lhe muitos beijinhos quando o colocaram perto da minha cara. O bebé fez contacto pele a pele com o pai, pois comigo era impossível.

Depois de cozida (por dentro) e agrafada (por fora), e depois de me terem feito um penso muitíssimo apertado que me provocava dores tremendas, fui para a sala de recobro, onde tive de esperar alguns longos minutos até me trazerem o bebé. Puseram o meu filhinho deitado a meu lado e incentivaram-me a dar de mamar. É uma sensação estranha, pois nem nós nem o bebé sabemos bem o que fazer. É o puro “instinto” que nos diz como fazê-lo, a ambos. O bebé começou logo a mamar e só então me senti “mãe”. É estranho dizer isso, mas foi o que senti.

O pai pode estar a meu lado nesse momento, mas quando me levaram para o quarto na ala de internamento, tivemos de nos despedir do papá pois a hora já era avançada.

Chegamos ao quarto, estava tudo escuro e silencioso. A auxiliar perguntou-me se queria um chá e umas bolachinhas e eu aceitei. Quando trouxe a ceia, disse que se sentisse dores ou precisasse de algo, premisse o botão da campainha, mesmo ao lado da cama. O bebé ficou deitadinho do meu lado direito, calmo e sereno. Estávamos ambos esgotados do dia anterior. A meu lado esquerdo ressonava uma mamã, tapada pela cortina. À minha frente estavam mais duas mamãs e seus bebés. Uma bebé chorava constantemente. A sua mamã não sabia bem o que fazer para acalmá-la. Os outros bebés dormiam, juntamente com o meu.

Já de madrugada as dores começaram a apertar. Tinha o soro a correr na mão direita e uma algália que me aliviava a bexiga. Toquei, pela primeira vez, à campainha. Uma auxiliar pouco simpática veio à porta: “quem tocou?”. Timidamente respondi, “fui eu”. “Diga”, respondeu secamente. “Estou com muitas dores, já não aguento mais”. A auxiliar deu meia volta e saiu. Calculei que fosse chamar a enfermeira o que, de facto, aconteceu. A enfermeira já trazia uma dose de Nolotil, que me introduziu no soro sem falar muito. Disse apenas que, se tivesse mais dores, a chamasse novamente.

A noite passou-se e, às 6h30, chegou uma “equipa” preparada para me levantar e dar banho. Puseram o bebé no berço e disseram-me para me levantar e preparar as coisas para o banho. Lentamente levantei a cabeça, depois com muito custo rolei para colocar as pernas no chão e sentar-me na cama. As dores eram excruciantes. Depois de esperar uns minutos para não desmaiar, levantei-me com a ajuda da enfermeira e preparei as coisas para o banho. Um conselho às futuras mamãs: levem os produtos de higiene (gel de banho apenas, para o primeiro banho), toalha de banho e toalha de bidé, bem como uma camisa de dormir e umas cuecas ou fraldas, já separados em sacos individuais para cada dia de internamento. É complicado estar à procura do que precisamos numa mala cheia, para além de não ser fácil transportar todos aqueles elementos na mão para a casa de banho.

Escolhi usar fraldas de incontinência em vez de cuecas descartáveis, o que me facilitou em termos práticos: não me sujei com sangue, senti-me mais aconchegada na zona do abdómen e senti-me mais confortável a nível de movimentos. Aconselho vivamente!

O banho deu-se, com um avental de plástico para não molhar o penso. Soube-me tão bem! Foi a primeira vez que deixei o meu bebé a cuidado de outros. Quando saí do banho, deitei-me novamente. Fui observada pela enfermeira que me palpou a barriga para sentir o útero, apertou-me os mamilos para ver se tinha leite e viu se estava a sangrar muito. Estes procedimentos demoraram algum tempo, chegando a hora do pequeno almoço: uma carcaça com manteiga e leite com café ou simples.

O meu bebé não tinha chorado essa noite nem tinha “pedido” mais comida. Pelo contrário, estava aparentemente mal disposto, com vómitos. Saía uma espécie de espuma branca sempre que um vómito chegava. Chamei a enfermeira: “é normal acontecer?”. Esta é a pergunta mais frequente e mais utilizada depois que um bebé nasce! Não sabemos nada, e tudo o que acontece é novidade para nós e para o bebé! Perguntamo-nos muitas e muitas vezes: “é normal?”. Sim, é normal! Tudo é normal nesta fase inicial, mas para uma recém-mamã tudo parece estranho! O que estava a acontecer é que, como o bebé não tinha sido “espremido” pelo canal pélvico, como acontece aos bebés de parto normal, logo, tinha fluídos acumulados no estômago que precisava libertar.

Depois de lhe mudar a fralda, a enfermeira perguntou se o bebé fizera cocó e chichi. Respondi que apenas tinha feito chichi, pelo que a enfermeira me deu um bebé gel para aplicar. Senti uma estranheza enorme: já? O bebé mal tinha saído de mim e começava já a ser “entupido” de coisas! Mas teve de ser. Fez o bebé gel e, passado algum tempo fez o seu primeiro cocó verde escuro e muito gelatinoso! Era o mecónio.

Entre dar de mamar, tratar dos mamilos, tentar descansar, mudar fraldas e ser observada pelas enfermeiras, chegou o momento das vacinas. Coitadinho do meu bebé! Tinha nascido na noite anterior e já ia ser picado! Levou duas vacinas: Hepatite B (1ª dose) e BCG.

Com esta azáfama nem me apercebi que era hora de almoço. Vieram os tabuleiros e fomos almoçar. Mal me consegui sentar na cadeira…aliás, mal me conseguia mexer com as dores intensas. Tentei engolir um pouco de peixe frito terrivelmente seco, uns bróculos sem sal e um pouco de puré igualmente insonso! Que coisa horrível comer comida sem sal! A sopa era praticamente puré de batata com uns fios de couve a boiar. A sobremesa: uma laranja! Sinceramente! Para mulheres a tentar amamentar, que precisam de se alimentar bem, dar este tipo de comida? Liguei logo ao meu marido a pedir socorro alimentar! Ele vinha ter conosco às 14h, hora da visita, e ficaria até às 20h. Estava ansiosa em vê-lo! Estar no hospital, mesmo que num quarto com mais mamãs, é bastante solitário!

Finalmente o meu rico marido chegou carregado com cerejas, bolinhos, pão, sumo, água (muito importante!) e muitos mimos para nos dar!

As visitas nestes dias de internamento foram praticamente só dos meus sogros, pais, irmã e tia. Por acaso não fomos bombardeados por visitas, o que facilitou a tranquilidade.

Quando terminou a hora da visita, pelas 15h, ficamos só nós os três. O papá aproveitou para pegar o seu bebé ao colinho e fazer companhia à mamã. Pelas 16h a enfermeira chegou com o “trem” do banho. Ia exemplificar como se dá banho a um recém-nascido. Felizmente para nós, tivemos uma aula prática na preparação para o parto que nos ajudou a ter noção dos passos a seguir. Para além disso, tivemos a companhia da minha tia, que é enfermeira parteira e deu o primeiro banho ao sobrinho, podendo o papá filmar para depois “estudar” em casa.

Como disse no início, quando se está no hospital o tempo passa “a correr”! Chegou a hora do papá regressar a casa e a hora de jantar mais uma ementa terrível!

Estávamos exaustos e depressa adormecemos, ainda com sol. A noite foi mais agitada, entre o choro dos outros bebés, o choro do meu bebé, dar de mamar (nem sei como me consegui mexer!), receber medicação e tentar dormir um bocadinho, mesmo sem posição confortável!

Mais um conselho às mamãs: levem almofada de amamentação, pois para dormir e dar de mamar ajuda muito!

Os restantes dias de internamento foram igualmente agitados, com o exame auditivo ao bebé no segundo dia, bem como o exame pediátrico aos reflexos precoces do bebé.

Chegou o terceiro dia, e a vontade enorme de “sair” dali! É um sentimento misto, pois ao mesmo tempo que queremos sair, temos receio de não ter o apoio constante das enfermeiras e a medicação doseada e controlada. Eu estava ainda com muitas dores e quase não conseguia andar. Cheguei a pensar que nunca mais ia “ficar boa” e que não iria conseguir cuidar do meu bebé! Felizmente, o meu marido tirou o primeiro mês para ficar em casa e ajudar-me nesse processo!

Tudo muda em questão de segundos, quando o nosso bebé sai de nós e inicia a sua vida neste mundo!

Por um lado, acaba-se o poder ir onde queremos e quando queremos; começa a preocupação com as rotinas e o sair apenas quando o bebé o permite. Acabam-se as noites de 8/9 horas de sono seguidas; começam as noitadas entre mama, biberões, mudança de fraldas, aconchego, sobressaltos cada vez que o bebé tosse ou faz um barulhinho diferente. Acabam-se os momentos “para nós”, fazendo o que nos apraz; começam os dias em função do bebé e todos os momentos em que ele dorme são aproveitados na arrumação da casa (que fica caótica!), lavagem de roupas (nossas e do bebé…como é que um ser tão pequenino suja tanta roupa!), passagens a ferro, tentativas de cozinhar, pois sempre que estamos a começar a fazer algo, ouvimos um choro que pede a companhia permanente da mamã. Acaba-se a capacidade de memorização; começam as falhas de memória a meio das frases e cortes no raciocínio. Acabam-se os cabelos lindos, fortes e saudáveis; começam as enormes perdas de cabelo, parecendo que vamos ficar carecas mais depressa que os nossos avós! Acabam-se as compras; começam as corridinhas ao supermercado para comprar coisinhas para o bebé, sendo as farmácias as nossas maiores amigas em momentos de cólicas! Acabam-se as compras de roupas para nós; começam as compras de roupinhas para o bebé que cresce a cada semana!

Por outro lado, acabam-se os dias solitários e chatos, sem nada para fazer; começam os dias cheios de atividade. Acaba-se o sentimento de que não somos valorizadas; começa a dependência de nós por um ser pequenino e indefeso. Acabam-se as nossas incapacidades; começam os “superpoderes” de uma mãe que tudo faz pelo seu filho. Acabam-se as emoções ponderadas e superficiais; começa uma vida cheia de emoções e sentimentos muito intensos. Acaba-se o egoísmo e egocentrismo; começa o altruísmo e prazer em fazer tudo para que o nosso bebé esteja bem! Acaba-se o “eu”; começa o “nós” a três. Acabam-se as decisões individuais; começam as decisões partilhadas com o papá.

Ter um bebé não é tão simples nem “bonito” como se pinta nos quadros e registos fotográficos! Não é um conto de fadas que termina sempre em “viveram felizes para sempre”! Tem vários aspetos menos positivos com os quais nos temos de habituar, que nos tiram o sono, nos perturbam, preocupam, trazem lágrimas, incomodam. Mas o sorriso do nosso bebé quando ouve a nossa voz e vê o nosso rosto, o calor que sentimos quando ele se aninha no nosso colo e procura conforto, a emoção de o nosso bebé agarrar com força o nosso dedo e não o largar, o sentimento poderoso de sermos um porto seguro para os nossos filhos e um exemplo que eles vão modelar superam qualquer adversidade!   

Tornar-se mãe é (re)nascer, juntamente com o nosso bebé!
 

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